
Por Gabriela Rosa e Gustavo Monteiro
Foto: Bruna Cris
Mais um dia de labuta para João. Só de pensar em chegar àquela sala médica, as mãos estremecem. O coração pulsa forte e rápido ao passar pelos corredores até seu local de trabalho. Já de uniforme, entra na sala branca, limpa e esterilizada. A obrigação de ter que cumprir sua função lhe causa uma crise de choro compulsivo. Com as mãos suadas, ele sabe que terá que encarar os mortos. Terá que maquiá-los, retirar vísceras, ornamentá-los. Trabalhar com a morte deixou de ser uma paixão e passou a ser uma angústia sem fim.
João tem 37 anos, é casado, pai de uma filha que completou seu quinto aniversário há quatro meses e o melhor tanatopraxista da Santa Casa de Belo Horizonte. A tanatopraxia é uma técnica moderna de preparação de corpos humanos, vitimados das mais variadas formas. Por meio da aplicação de produtos químicos, trata-se o morto para que este esteja conservado e com boa aparência para o velório.
Depois de ver o corpo do pai sendo tratado para o enterro, João se interessou pela profissão. E se apaixonou pela morte. Começou a freqüentar velórios de desconhecidos, a fazer amizades com pessoas que compartilhavam essa diferente atração. Procurou um curso e há 15 anos exerce a tanatopraxia. Há cinco anos, porém, começou a ter muitas dificuldades para trabalhar.
João começou a apresentar sintomas de medo, tristeza e depressão. Suas mãos tremiam, sentia-se sufocado, ansioso e angustiado ao ter que fazer o serviço que há tanto lhe era agradável. Já não se alimentava direito e, ao chegar ao trabalho, percebia que uma batedeira estranha no peito e medo de não conseguir executar suas atividades laborais. Devido a essa dificuldade, se afastou do emprego por um ano e meio e buscou ajuda psiquiátrica.
Após o período de afastamento, voltou ao hospital, retornando também às angústias que o lugar lhe causava. João havia piorado. Estava sendo medicado por alguns psiquiatras que o consideravam psicótico, uma vez que ele apresentava sinais de alucinação e distanciamento da realidade. Mas a questão principal da dor de João ainda era o trabalho. Ele achava que os mortos sentiam dores ao serem cortados. Sentia-se arrependido ao fazer aquele trabalho.
“A minha mão não consegue parar de esquecer”, relatou João para o psiquiatra Ênio Rodrigues da Silva no dia seis de novembro de 2010. Psiquiatra do Centro de Referência
A angústia originada pelo emprego teve início em 2005, quando sua filha nasceu. Ele a imaginava sendo tratada pelas técnicas da tanatopraxia e tais pensamentos o desnorteavam. Em seu prontuário, João se queixa: “com o tempo eu comecei a não agüentar, comecei a ficar estranho ao fazer esse tipo de serviço, comecei a ter pânico. Eu pensava nela, na minha filha”.
Em uma conversa sobre o caso, no CERSAM da região leste de Belo Horizonte, Ênio explica a abordagem que utiliza em casos como o do João. Descolado, com espírito jovem e alto astral, características que contrastam com seus 43 anos e cabelos grisalhos, o médico chega à porta de sua sala onde um paciente o espera. “Eu gosto de doido, mas não fica muito perto não”, brinca o psiquiatra. Tratado com muito carinho por seus pacientes, Ênio é um grande defensor da luta antimanicomial. Além de psiquiatra do CERSAM, leciona no curso de medicina da faculdade Unifenas e foi um dos colaboradores da 2ª Mostra de Arte Insensata, exposição de quadros e esculturas de usuários do sistema de saúde mental.
Para o psiquiatra, a primeira coisa a ser vista, em casos clínicos, é o sujeito, buscando encontrar a origem do sintoma e a partir dessa elucidação, medicar o paciente. O medo precisa ser desvendado e contextualizado para que haja um tratamento sustentável. “É preciso pegar o sintoma medo, colocá-lo entre parênteses e ir ao sujeito, à pessoa”, exalta o médico. Pelo diagnóstico de Ênio, o medo de João ao encarar o trabalho está ligado à sua incapacidade de saber lidar com a vida, dificuldade esta que aumentou com o nascimento de sua filha.
O tanatopraxista, em uma de suas crises, foi remanejado de função no hospital onde trabalhava, mas resolveu voltar ao antigo serviço, pois se sentia pouco produtivo na nova função. Vê-se, então, a insistência em continuar a alimentar o desejo que o paralisa, que o deprime. É a partir dessa percepção que se inicia o tratamento. A vertente biológica da psiquiatria, segundo Ênio, busca categorizar os sintomas e tratá-los. Já uma vertente mais humanista da profissão, visa cuidar do indivíduo, inseri-lo num contexto social para que haja a construção de um equilíbrio ou resolução para a patologia do paciente.
Ênio enxerga o medo como um sentimento vital para o homem e não como uma doença. Em uma era virtual e contemporânea que possibilita ao ser humano várias possibilidades de entretenimento, trabalho, comunicação e distrações, a angústia toma diferentes formas e se adéqua a novas realidades. As pessoas criam defesas para seus medos e se reformalizam para conseguir lidar com eles. Para o psiquiatra, saúde não é ausência de doença. “A doença é uma perda ou fragilização da capacidade de renormalizar os acontecimentos para a adaptação de realidades”, assegura.
A partir dessa premissa, precisa-se repensar o sentido que o indivíduo dá ao medo. Tal sentimento é nocivo, quando ele fica maior que o sujeito. De acordo com o psiquiatra, o medo é intrínseco à psique do ser humano, tornando-se uma mediação entre uma reação muito radical e a falta de ação. O excesso e a escassez são o perigo: se tem pouco medo, o sujeito se atira demais, se tem muito, se isola.
Medo de perder o emprego, de não conseguir pagar as contas, de não passar no vestibular, perder um ente querido: o medo está presente
A psicanalista freudiana Martha Célia Vilaça Goiatá trabalha com crianças há 27 anos e compartilha da opinião do psiquiatra. Comumente, a partir dos oito meses, a criança desenvolve um estranhamento do outro, proveniente do reconhecimento das novidades do mundo. Esse comportamento é visível quando o bebê se recolhe no ombro do pai com certa repulsa, se escondendo do que lhe é diferente. Marta acredita no medo como construção da constituição do sujeito.
Na medida em que a criança vai crescendo, ela busca artifícios para conviver com esse estranhamento, como o desenvolvimento da linguagem e criação de fantasias. São três as maiores situações conflituosas do indivíduo, segundo Freud: o relacionamento com o outro, o enfrentamento de intempéries e dificuldade em lidar com a morte. “Para encarar tais fatos, recursos são criados e medos são construídos como anteparo para que a criança consiga interpretar esse confronto com o outro e com o mundo”, pontua a psicanalista.
Manifestações recorrentes desse tipo de defesa, para a criança, é o aparecimento de pesadelos, o xixi na cama, entre outros tantos. Marta conta o exemplo da própria filha que, quando pequena, assistiu, com a babá, uma cena forte de violência na televisão. Como a psicanalista estava trabalhando, a menina se refugiou na casa da vizinha, onde achou que tinha mais proteção.
O medo, porém, é um sentimento que tem, também, características fisiológicas. A primeira ordem parte das amídalas. Perigo. A segunda parte do córtex. Fugir. As pupilas se dilatam, o sangue se concentra do cérebro e no coração, taquicardia. No pulmão os brônquios dilatam para receber mais oxigênio, você passa a respirar mais rápido e ofegante. Os rins produzem adrenalina e o sangue corre mais rápido em suas veias. Cada célula do seu corpo passa a produzir, em uma escala maior, energia. O resultado disso é um corpo humano mais forte e resistente e uma pessoa com medo.
No livro Cérebro Emocional, de Joseph LeDoux, fica mais do que provado que o medo é físico e social. Principalmente no que diz respeito à forma de transparecê-lo. “Quando você sente medo isso é uma experiência individual. Agora como você vai dar vazão a esse medo, como ele ai interferir na sua conduta cotidiana isso já é social. Porque vai depender da interação com os outros e também interferir nela”, explica o sociólogo e professor universitário, Wilson Cruz.
Para o socilólogo, a origem do medo está no tecido social. “As pessoas têm medo do que é externo a elas. Ou seja, em certa medida, a origem do medo está na estrutura social. A gente pode dizer que todo mundo experimenta o medo, embora não de forma semelhante. Porque o que vai determinar a intensidade desse medo é o lugar que a gente ocupa, a forma como somos educados. Até o espaço geográfico interfere na forma como a gente sente medo. Por exemplo, uma mãe pode até sentir medo de muita coisa, mas não sempre deixa transparecer para o filho, se mostrando forte”, analisa.
Por outro lado, a ausência de medo colocaria em risco a estrutura social. De acordo com Wilson, sem medo as pessoas não sentiriam necessidade de obedecer a regras. Os impulsos que hoje os indivíduos controlam ao estarem inseridos na sociedade, por medo da força coercitiva do estado, não teriam mais motivos para existir.
De acordo com o livro Sem Medo de Ter Medo, de Tito Paes de Barros Neto, valores sociais, como respeito ao próximo e até mesmo sentimentos como o amor, companheirismo e ódio, deixariam de existir. É justamente esse medo, originado na estrutura social, que permite a perpetuação da civilização humana como conhecemos. Isso porque é atrás de proteção e segurança social que o homem estipula novos objetivos e metas.
“O medo normal, em uma proporção que não impede que você faça nada, é saudável. Mas a síndrome do pânico nunca me ajudou em nada”, declara Fernando Limões, 23, estudante de engenharia ambiental. “Uma vez eu estava com uma namorada na roda gigante de um parque de diversões que de vez em quando tem no Minas Shopping, eu tenho medo de altura, quando estávamos lá no alto eu comecei a ter uma crise, e comecei a pedir para descer, fazer sinal para o operador do brinquedo parar. Não estava na minha vez de descer, mas eu tive que descer, não conseguia ficar no brinquedo, tinha a sensação que ia morrer ”, relata.
Enquanto roda os dedos displicentemente sobre o rótulo de uma cerveja, Fernando conta que descobriu sofrer da síndrome há dois anos. Nesse período, começou o tratamento e parou algumas vezes, tomou medicamentos e fez acompanhamento com psicólogos. Ele afirma que a síndrome não é uma doença, mas já o impediu de fazer algumas coisas. Explica ainda que o medo que sente da morte, não advém de situações externas, como uma bala perdida ou acidente de carro. “É um medo interno, de dentro do seu corpo, de que você vai morrer porque passou mal, teve um infarto ou alguma coisa assim”, exemplifica.
A síndrome do pânico é uma das variações do medo considerado saudável e normal. Além dela, ainda existem as fobias e a chamada doença de Urbach-Wieth em que a pessoa não sente medo nenhum, de nada, por causa de uma má formação das amídalas.
“Quando cada crise termina é como se você tivesse acabado de subir uma montanha empurrando uma pedra”, enfatiza Fernando. O receio de ficar repetindo o Mito de Sisifo, personagem da mitologia grega que é condenado pelos deuses a passar a eternamente a empurrando uma pedra morro acima para depois vê-la rolar para baixo, faz com que o paciente com síndrome do pânico tenha pavor de uma próxima crise. Isso, por sua vez, aumenta essa probabilidade.
Agora as crises pararam. Com ajuda de tratamento médico e medicação a situação está controlada. Hoje o jovem que já deixou de sair de casa de ônibus, evitou sair à noite e preferia freqüentar locais que tivessem algum hospital por perto, sai para balada à meia noite e sozinho.




