
Festas de família costumam não ser muito agradáveis, mas aquelas reuniões com parentes que você conheceu quando tinha dois anos de idade em pleno sábado à noite é de matar. Pessoas que você desconhece, mas que entoam quase em coro, “como você cresceu, sua mãe te deu chá de bambu quando pequeno? Como está bonito, está estudando? Trabalhando?”. Foi em uma noite, aparentemente, perdida que fui encontrado por Valéria.
Diferente das outras parentes, que mais pareciam ter saído de um filme de Almodóvar, Valéria sentou ao meu lado, me beijou o rosto e falou, sem exclamar, “sou sua prima, prazer”. O gesto carinhoso e gratuito me conquistou. A partir desse momento, a curiosidade de conhecer aquela mulher tornou a noite em uma festa de descobertas.
Valéria Santos de Lima é mineira de Belo Horizonte, nascida e criada no bairro Grajaú. Faz aniversário em outubro, tem 50 anos e é do signo de libra. Tem por volta de 1,75 de altura, é branca, robusta, cabelos lisos, estilo chanel, olhos castanhos claros e um sorriso de propaganda de creme dental. Possui uma doçura na fala, porém impõe-se com facilidade quando o assunto diz respeito às suas convicções.
Sua infância foi como a da maioria das crianças nascidas nos anos 60, vivida nas ruas perto de casa, cheia de brincadeiras criativas e simples, como bola de gude, rodar pião, descer morro com carrinho de rolimã, queimada e outras tantas. Segunda filha de uma família de oito irmãos, Valéria tinha, também, suas obrigações domésticas. Cada filha da dona Maria Gonçalves ficava encarregada de uma tarefa na casa. Ela lembra da correia do pai que esperara quem não cumprisse direito seus deveres. Nos estudos, foi sempre a primeira da turma. Este tipo de problema não atormentava os pais.
Valéria foi uma adolescente muito a frente de sua época. Começou a trabalhar cedo, na sapataria do pai, Del Rio Lima, no centro da cidade. Aos quinze anos, já pagava seus estudos no colégio Pan-americano. Sua adolescência foi regada de festas e amigos. Saía bastante para bares e boates, uma vez que sua prima e confidente era cantora da noite. Segundo ela, curtiu o que podia e o que não podia dessa fase. Nunca se envolveu com drogas, mas a cerveja era uma paixão. Entrou, em 1981, para a faculdade Newton Paiva no curso de Ciências Contábeis.
Já mulher, aos 24 anos, Valéria conheceu uma das maiores paixões de sua vida. Contudo, ele era casado. Ela se mudou para São Paulo, movida por esse amor, largando a faculdade. Trabalhou em lugares que a deram grande experiência profissional. Viveu um romance de 20 anos com esse homem, nascendo desse relacionamento, um filho.
Sua vida se reformulou com a chegada dessa criança. Voltou para Belo Horizonte, alugou um apartamento no bairro Jardim América e arrumou um emprego de secretária. Nesse mesmo trabalho foi promovida a auxiliar de escritório e, em seguida, a gerente comercial. Firmou-se profissionalmente na área comercial, exercendo essa função em mais duas empresas que grande renome em Minas Gerais. Seu filho nasceu e recebeu todo auxilio necessário do pai, que o visitava constantemente. Valéria se considerava feliz naquela época, até que seu namorado teve que mudar para Vitória com a família, deixando-a extremamente chateada. Contudo, tocou sua vida e continuou mantendo seu relacionamento, mesmo à distância.
Em 1997, Valéria sofreu as conseqüências de não ter um curso superior em seu currículo ao ser substituída por um profissional mais especializado. Assim, juntou-se com alguns amigos e montou uma empresa especializada em vendas e manutenção de ar condicionados em Ipatinga. A firma conseguiu um bom faturamento durante dois anos, porém, devido à alta concorrência, entrou em falência no final de 1999. Nesse tempo, Valéria já freqüentava um centro espírita que também era um abrigo para deficientes mentais e físicos, chamado NAEMC. Devido à falta de emprego, foi chamada para gerenciar a instituição filantrópica, aceitando prontamente, já que estava muito envolvida com a causa e com seu desenvolvimento espiritual. Porém, por não concordar com algumas atitudes dos dirigentes do lugar em que trabalhava, se demitiu, retornando a Belo Horizonte, onde tinha um apartamento. Para ela, Ipatinga foi um ensinamento sobre como é preciso cuidado ao se tratar com religião. “A linha que separa dedicação do fanatismo é muito tênue”, ressaltou.
Voltar a Belo Horizonte significou, para Valéria, repensar muitas coisas de sua vida. Esse retorno fez com que ela terminasse o relacionamento com aquele homem que nunca a assumiu e que nunca iria a assumir. Ela e seu filho sofreram com a separação. Entretanto, foi a partir dessa decisão que sua vida se tornou seu principal foco. Tornou-se corretora de imóveis, conquistando êxito profissional.
Em meio a esse processo de reconstrução, Valéria, que já tinha passado por outras religiões, encontrou no protestantismo um lar acolhedor. Frequentou várias denominações e experimentou, novamente, o fanatismo, ao se dedicar excessivamente a algumas igrejas. Hoje, participa de um grupo de estudantes da bíblia, lugar onde a proporcionou conhecer pessoas afins a ela. “Não vou tentar te converter”, adiantou-se a começar a falar da sua religião. Por meio do Evangelho, Valéria conseguiu centrar-se em seus objetivos, romper com questões que a incomodavam, como problemas familiares. Segundo ela, depois que Jesus se tornou o Senhor de sua vida, que as coisas começaram a dar certo de uma forma sustentável. Valéria se considera uma mulher a caminho da felicidade. Acredita que ainda faltam algumas coisas, mas ela tem certeza que o que ela precisar, irá conseguir. Esse é o conforto que Deus a proporciona.
Minha prima, que antes desconhecia, se abriu para mim de uma maneira que nem meus parentes mais próximos se mostram. É uma crente bacana. Cheguei a me esquivar quando começou a falar de religião, mas dá pra perceber o quão resolvido era esse assunto na vida dela. E como nada é perfeito, eu e Valéria tivemos que parar nosso papo, porque minha mãe queria me apresentar outra prima que eu não fazia a mínima idéia de quem fosse. Mas não tinha importância, a festa já tinha valido.
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