quinta-feira, 1 de julho de 2010

As confissões de um anjo nada pornográfico.

“Naquele momento, percebi que a solidão nasce da convivência humana”. Nelson Rodrigues

Por Gabriela Rosa e Gustavo Monteiro

Na contradição, o anjo pornográfico da dramaturgia se mostra um reacionário. Nelson Rodrigues fala do amor eterno, do pão com ovo, de lêndeas e piolhos, Guimarães Rosa, esquerdas e direitas, enfim, é uma confissão do cotidiano brasileiro. Na sétima reimpressão do Óbvio Ululante, o dramaturgo e jornalista se apóia em acontecimentos do dia-a-dia, notícias e, principalmente, em suas lembranças no Rio de Janeiro. Memórias tão presentes na obra que dão a ela o subtítulo Primeiras Confissões. A compilação das crônicas de Nelson Rodrigues para O Globo, entre dezembro de e 1967 e julho de 1968, feita por Ruy Castro, foi publicada em 1993 pela Companhia das Letras.

De linguagem acessível para a época e com certa liberdade de expressões, sempre respeitando a norma culta da língua, Nelson aborda a realidade da vida do brasileiro de uma forma singela e ímpar. Por meio de suas experiências, o autor descreve cenas saborosas à leitura, dando suporte às suas teses sobre a sociedade tupiniquim e suas peculiaridades. O amor é duradouro e único, como na passagem “quem nunca desejou morrer com o ser amado, não conhece o amor, não sabe o que é amar”. Vemos, então, um Nelson Rodrigues despido da pornografia destilada em sua dramaturgia. É um homem de pudores, um ser apaixonado.

Pouco se pode perceber da escrita sexual do dramaturgo no livro. Mesmo porque, o sexo é sempre retratado pela ótica de uma criança que não percebe quando os rostos dos noivos da vizinha fatal mudam. Esse episódio é narrado na crônica A Última Mulher Fatal (pág.83). Nelson Rodrigues vai além e questiona o sexo. “Por que dizer aquilo a meninos e meninas e não cabras? O sexo, estritamente sexo, nada tem a ver com o pobre e degradado humano. É, repito, um problema dos já referidos bezerros.” E conclui: “E nunca ninguém se dispôs a ensinar uma educação amorosa”. Não é possível ignorar o momento em que o país vivia. Era 1968, primavera de praga e movimentos estudantis por todo o mundo.

Esse contexto social não pode ser ignorado para entender a obra de Nelson Rodrigues e seu posicionamento reacionário. Por ter sido escrita naquele ano, o livro não pode estar alheio às modificações sociais que eclodiam. Uma delas, a greve geral francesa, ganha atenção especial na crônica O Héroi sem Risco (pág. 267). Nelson critica a revolução que é feita na França, chamada por ele de revolução cultural, que não tem qualquer causa. “... e por que ninguém morre na França? Porque lá não existe uma causa nítida, uma causa precisa. E só se morre, ou só se mata por uma causa”.

Está aí um dos traços do Nelson reacionário que dedicou crônicas como Jovens sem Amor (pág. 100) e O Jovem Monstro (pág. 107), para discutir sobre os jovens atuais. Os mesmos que no ano anterior realizaram a revolução cubana e que ao longo dos anos 60 fundaram, no Brasil, grupos como Juventude Universitária Católica [JUC] e Juventude Operária Católica [JOC]. Em um momento de Pra frente Brasil, Nelson queria que o Brasil olha-se pra trás.

Outro ponto preponderante à obra de Nelson é a sátira aos brasileiros. O autor os encara como seres ignorantes que desconhecem sua beleza e inteligência. O deboche surge em várias crônicas, mesmo quando não é o assunto central. Em Sem medo do Conselheiro Acácio (pág. 147), percebe-se, claramente, essa inclinação: “O brasileiro não nasceu para ser inteligente. E direi mais: - nem pode ter um parente inteligente. Parece exagero ou piada. Nada mais trágico para uma família brasileira do que ter, em seu seio, um caso de inteligência”.

Se por um lado o autor afirma que o brasileiro não pode ser inteligente, por outro, reconhece a capacidade não só brasileira, mas de todo o mundo, de se reinventar. Na crônica A Vítima Obrigatória (pág. 64), a frase de abertura é: “O ser humano é o único que se falsifica”. E termina o parágrafo afirmando: “Nunca vi um marreco que vira outra coisa. Mas o ser humano pode sim desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo”. Esses são artifícios utilizados pelo dramaturgo para tratar das mudanças de comportamento que aconteciam nos anos sessenta. Durante a adolescência de Rodrigues, os homens e jovens se apressavam em dar lugar às mulheres nos bondes e ônibus. Isso já não acontecia em 68. Em compensação, nos casamentos, as pessoas se davam o luxo de estarem descontentes com o relacionamento. Fica claro, assim, que cada vez mais o comportamento humano se renovava na frente de Nelson, que nem sempre aprovava as novidades. Isso, mesmo quando assentia com a cabeça para logo depois abanar o rabo.

Para alcançar os leitores em suas crônicas, Nelson usava a narrativa. Essas se baseiam em personagens famosas do cotidiano brasileiro, mas também é comum que o autor apresente ao público marcas de sua infância. É por meio do lugar comum em que elas se encontram que a ligação com o leitor é feita. Os temas abordados são tratados como uma ponte do relato para a reflexão. Apesar de usar muitas vezes o tom de deboche, o autor consegue ser poético, no que concerne a uma busca à sensibilização da cena e, consequentemente, do leitor. “É a farmácia que não morre. Em seu lugar levantaram um edifício. Mas em mim ela não morre”.

Amigo de esquerdistas e simpatizante dos militares, o autor não se incomodava muito em ser contraditório. Em uma situação especifica, vemos o uso da sátira pelo autor: seu tratamento com Dom Helder Câmara. Ao longo dos oito meses em que suas crônicas foram escritas, Nelson debocha, em diversas delas, da posição do religioso em relação à mídia. Quando vai a um programa de televisão o Arcebispo Vermelho é perguntado sobre o amor livre. “Por que falar de amor livre se o Nordeste passa a fome?”. Pronto. A partir daí, a ironia do dramaturgo ganha força quando todos os acontecimentos são relacionados à fome no Nordeste. Em muitas crônicas que se seguem, Nelson usa esse lugar comum ironizando até mesmo os outros tipos de fome.

Em compensação, outra personalidade brasileira é lembrada com enorme admiração: Guimarães Rosa. Em suas cinco primeiras crônicas, Nelson tem como pano de fundo a morte do escritor e linguista brasileiro. Em Nenhum vento pode apagar (pág. 25), se discute a obra do autor mineiro. Já em O Grande Homem (pág. 28), é discutido o velório do Velho Guima, considerado por Nelson um grande homem. O dramaturgo afirma que esses grandes homens estão fadados a um velório distante e impessoal. "Passei na academia (Academia Brasileira de Letras) uns dez, quinze minutos; e sai de lá certo que o grande homem é o menos amado do seres. O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza".

Nelson nasceu pernambucano e, ainda criança, se tornou carioca. Teve uma infância difícil, de vontades, que metaforizaram boa parte das crônicas de O Óbvio Ululante. Adolescente e já jornalista, sofreu a perda de seu irmão e pai, acarretando grandes além dificuldades financeiras. Mas, reergueu-se, ajudado por um amigo de seu pai, e começou a trabalhar na redação de O Globo. Foi durante a juventude que Nelson começou a escrever teatro, que diria muito da vida brasileira, a vida como ela é. O dramaturgo tinha um escracho elegante em suas peças e se auto-intitulava o anjo pornográfico. Na ficção, Nelson o era, brilhantemente! Mas na vida, o autor deixou um legado de crônicas que expõe o doce amargo de uma escrita que remete ao sentimento experimentado a cada história contada por esse grande mestre da cultura literária e teatral brasileira.

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