“Naquele momento, percebi que a solidão nasce da convivência humana”. Nelson Rodrigues
Por Gabriela Rosa e Gustavo Monteiro
Na contradição, o anjo pornográfico da dramaturgia se mostra um reacionário. Nelson Rodrigues fala do amor eterno, do pão com ovo, de lêndeas e piolhos, Guimarães Rosa, esquerdas e direitas, enfim, é uma confissão do cotidiano brasileiro. Na sétima reimpressão do Óbvio Ululante, o dramaturgo e jornalista se apóia em acontecimentos do dia-a-dia, notícias e, principalmente, em suas lembranças no Rio de Janeiro. Memórias tão presentes na obra que dão a ela o subtítulo Primeiras Confissões. A compilação das crônicas de Nelson Rodrigues para O Globo, entre dezembro de e 1967 e julho de 1968, feita por Ruy Castro, foi publicada em 1993 pela Companhia das Letras.
De linguagem acessível para a época e com certa liberdade de expressões, sempre respeitando a norma culta da língua, Nelson aborda a realidade da vida do brasileiro de uma forma singela e ímpar. Por meio de suas experiências, o autor descreve cenas saborosas à leitura, dando suporte às suas teses sobre a sociedade tupiniquim e suas peculiaridades. O amor é duradouro e único, como na passagem “quem nunca desejou morrer com o ser amado, não conhece o amor, não sabe o que é amar”. Vemos, então, um Nelson Rodrigues despido da pornografia destilada em sua dramaturgia. É um homem de pudores, um ser apaixonado.
Pouco se pode perceber da escrita sexual do dramaturgo no livro. Mesmo porque, o sexo é sempre retratado pela ótica de uma criança que não percebe quando os rostos dos noivos da vizinha fatal mudam. Esse episódio é narrado na crônica A Última Mulher Fatal (pág.83). Nelson Rodrigues vai além e questiona o sexo. “Por que dizer aquilo a meninos e meninas e não cabras? O sexo, estritamente sexo, nada tem a ver com o pobre e degradado humano. É, repito, um problema dos já referidos bezerros.” E conclui: “E nunca ninguém se dispôs a ensinar uma educação amorosa”. Não é possível ignorar o momento em que o país vivia. Era 1968, primavera de praga e movimentos estudantis por todo o mundo.
Esse contexto social não pode ser ignorado para entender a obra de Nelson Rodrigues e seu posicionamento reacionário. Por ter sido escrita naquele ano, o livro não pode estar alheio às modificações sociais que eclodiam. Uma delas, a greve geral francesa, ganha atenção especial na crônica O Héroi sem Risco (pág. 267). Nelson critica a revolução que é feita na França, chamada por ele de revolução cultural, que não tem qualquer causa. “... e por que ninguém morre na França? Porque lá não existe uma causa nítida, uma causa precisa. E só se morre, ou só se mata por uma causa”.
Está aí um dos traços do Nelson reacionário que dedicou crônicas como Jovens sem Amor (pág. 100) e O Jovem Monstro (pág. 107), para discutir sobre os jovens atuais. Os mesmos que no ano anterior realizaram a revolução cubana e que ao longo dos anos 60 fundaram, no Brasil, grupos como Juventude Universitária Católica [JUC] e Juventude Operária Católica [JOC]. Em um momento de Pra frente Brasil, Nelson queria que o Brasil olha-se pra trás.
Outro ponto preponderante à obra de Nelson é a sátira aos brasileiros. O autor os encara como seres ignorantes que desconhecem sua beleza e inteligência. O deboche surge em várias crônicas, mesmo quando não é o assunto central. Em Sem medo do Conselheiro Acácio (pág. 147), percebe-se, claramente, essa inclinação: “O brasileiro não nasceu para ser inteligente. E direi mais: - nem pode ter um parente inteligente. Parece exagero ou piada. Nada mais trágico para uma família brasileira do que ter, em seu seio, um caso de inteligência”.
Se por um lado o autor afirma que o brasileiro não pode ser inteligente, por outro, reconhece a capacidade não só brasileira, mas de todo o mundo, de se reinventar. Na crônica A Vítima Obrigatória (pág. 64), a frase de abertura é: “O ser humano é o único que se falsifica”. E termina o parágrafo afirmando: “Nunca vi um marreco que vira outra coisa. Mas o ser humano pode sim desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo”. Esses são artifícios utilizados pelo dramaturgo para tratar das mudanças de comportamento que aconteciam nos anos sessenta. Durante a adolescência de Rodrigues, os homens e jovens se apressavam em dar lugar às mulheres nos bondes e ônibus. Isso já não acontecia em 68. Em compensação, nos casamentos, as pessoas se davam o luxo de estarem descontentes com o relacionamento. Fica claro, assim, que cada vez mais o comportamento humano se renovava na frente de Nelson, que nem sempre aprovava as novidades. Isso, mesmo quando assentia com a cabeça para logo depois abanar o rabo.
Para alcançar os leitores em suas crônicas, Nelson usava a narrativa. Essas se baseiam em personagens famosas do cotidiano brasileiro, mas também é comum que o autor apresente ao público marcas de sua infância. É por meio do lugar comum em que elas se encontram que a ligação com o leitor é feita. Os temas abordados são tratados como uma ponte do relato para a reflexão. Apesar de usar muitas vezes o tom de deboche, o autor consegue ser poético, no que concerne a uma busca à sensibilização da cena e, consequentemente, do leitor. “É a farmácia que não morre. Em seu lugar levantaram um edifício. Mas em mim ela não morre”.
Amigo de esquerdistas e simpatizante dos militares, o autor não se incomodava muito em ser contraditório. Em uma situação especifica, vemos o uso da sátira pelo autor: seu tratamento com Dom Helder Câmara. Ao longo dos oito meses em que suas crônicas foram escritas, Nelson debocha, em diversas delas, da posição do religioso em relação à mídia. Quando vai a um programa de televisão o Arcebispo Vermelho é perguntado sobre o amor livre. “Por que falar de amor livre se o Nordeste passa a fome?”. Pronto. A partir daí, a ironia do dramaturgo ganha força quando todos os acontecimentos são relacionados à fome no Nordeste. Em muitas crônicas que se seguem, Nelson usa esse lugar comum ironizando até mesmo os outros tipos de fome.
Em compensação, outra personalidade brasileira é lembrada com enorme admiração: Guimarães Rosa. Em suas cinco primeiras crônicas, Nelson tem como pano de fundo a morte do escritor e linguista brasileiro. Em Nenhum vento pode apagar (pág. 25), se discute a obra do autor mineiro. Já em O Grande Homem (pág. 28), é discutido o velório do Velho Guima, considerado por Nelson um grande homem. O dramaturgo afirma que esses grandes homens estão fadados a um velório distante e impessoal. "Passei na academia (Academia Brasileira de Letras) uns dez, quinze minutos; e sai de lá certo que o grande homem é o menos amado do seres. O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza".
Nelson nasceu pernambucano e, ainda criança, se tornou carioca. Teve uma infância difícil, de vontades, que metaforizaram boa parte das crônicas de O Óbvio Ululante. Adolescente e já jornalista, sofreu a perda de seu irmão e pai, acarretando grandes além dificuldades financeiras. Mas, reergueu-se, ajudado por um amigo de seu pai, e começou a trabalhar na redação de O Globo. Foi durante a juventude que Nelson começou a escrever teatro, que diria muito da vida brasileira, a vida como ela é. O dramaturgo tinha um escracho elegante em suas peças e se auto-intitulava o anjo pornográfico. Na ficção, Nelson o era, brilhantemente! Mas na vida, o autor deixou um legado de crônicas que expõe o doce amargo de uma escrita que remete ao sentimento experimentado a cada história contada por esse grande mestre da cultura literária e teatral brasileira.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
MAS QUE MERDA! UM PANORAMA CULTURAL DO FEDOR QUE NÃO SE SENTE.
Por Gabriela Rosa e Gustavo Monteiro

Ou sobre como as fezes participam do imaginário cultural produzindo transgressão e questionando costumes estabelecidos.
De diferentes formas cores, tamanhos e texturas, os dejetos humanos expelidos pelo ânus, mais conhecidos como fezes, são uma boa matéria prima para qualquer artista. Junta-se o caráter contraventor e questionador que os restos humanos têm e pronto. Está aí um dos instrumentos e temas mais repulsivos e profícuo das artes.
Pode parecer estranho em primeira instância ou muito nojento falar desse assunto, mas as fezes estão ligadas às artes mais do que se possa imaginar. Seja na literatura, artes plásticas, cinema ou teatro a escatologia se mostra de várias maneiras. Na literatura vemos as fezes sendo utilizadas de forma conceitual, como é o caso de Glauco Mattoso, Rubem Fonseca e até mesmo Ferreira Gullar. Em 2006, o odor dos cinemas pesou com a estréia do filme do diretor Heitor Dhalia, o Cheiro do Ralo, em que a todo momento o personagem de Lorenzo, vivido por Selton Melo, afirmava categoricamente: "Esse cheiro que você está sentido não é meu. É do ralo". Até mesmo na moda, é possível encontras rastros dos excrementos em sapatos feitos de estrume de elefantes. Mesmo inspirando asco, esse ambiente não é tão feio quanto pode parecer.
Em Minas Gerais, o uberabense Mizac Limírio usou estrume de gado para compor seus quadros. O artista plástico emoldurou os excrementos em telas com o fundo trabalhado com pigmentos naturais, terra e pó de arenito, e esmalte sintético. Em entrevista ao site da UOL, o artista explica que, como é acostumado com o esterco, comum nas ruas do bairro onde mora, Jardim Espírito Santo, sua obra pode ser vista como um retrato da cultura da sua cidade. Uberaba é considerada a capital mundial do Zebu, uma espécie de bovino.
A relação entre a fisiologia merda e a arte se harmonizam do campo das significações. Biologicamente, as fezes são os materiais que restam da digestão. A etimologia da palavra remete ao latim faeces, que é o plural de resíduos. Por meio delas, pode-se fazer a análise, entre outras, dos hábitos alimentares, das diferenças genéticas e do stress pelo qual o indivíduo passou. O que é a obra de arte, senão a interação das emoções e da subjetividade do artista?
Essa é a opinião do mestre em literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Vinicius Pereira de Carvalho, ao avaliar a obra Mr. Mutt de Marcel Duchamp. Carvalho afirma em sua tese Literatura e abjeção: um estudo da imagem das fezes na obra de Rubem Fonseca que “defecar é um traço comum entre o artista e o leigo. Humanizado o artista, “artistiza-se” o contemplador, imprecisando-se os limites entre essas instâncias”.
Um grito de Merda
No teatro, um cocô originou o famoso “MERDA”, grito que os atores costumam dar antes de entrar no palco. Essa expressão nasceu na França. Reza a lenda, que um ator francês estava a caminho do teatro, onde iria apresentar uma peça muito importante. Críticos conceituados estariam presentes no espetáculo para avaliá-lo. Contudo, durante o percurso, aconteceram vários incidentes: passou por um incêndio, errou o caminho e, para finalizar, na porta do teatro, pisou numa bosta de cachorro. Fato é que, depois de todos esses obstáculos, a peça foi um sucesso, uma das melhores da carreira do ator. Por isso, hoje, quando o ator diz merda ao outro, está lhe desejando boa sorte.
Outra interpretação para a expressão nasceu no teatro antigo. Os nobres costumavam ir ao teatro de carruagem e os cavalos deixavam seus excrementos pelas ruas. O esterco era um indicador de público para os espetáculos. Então, os atores desejavam muita merda para que as peças estivessem sempre cheias.
A atriz Marisa Orth, em entrevista à revista Vip, trata o assunto de uma maneira mais subjetiva, não menos instigante: “Acho que o hábito de se falar merda antes de entrar em cena está ligado ao fato de que o trabalho é meio sujo, temos que lidar com a anti-vaidade. Se você entrar no palco querendo parecer chique não conseguirá relaxar e fazer o tem que fazer. Para quem está em cena, vergonha pouca é bobagem! Para mim a expressão vem de 'cagada', que significa sorte”, comentou.
E quem disse que na moda não tem merda? Um designer londrino que se apresenta como INSA criou um sapato feito de resina misturada com fezes de elefante. O calçado está exposto na galeria de artes britânica Tate. O artista produziu a peça em resposta ao pintor, também inglês, Chris Offili, que utilizou o mesmo material para a composição de alguns de seus quadros. Offili pintou a Virgem Maria negra, utilizando closes imagens da genitália feminina e estrume de elefante.
Por ser orgânica, a arte com esterco abrange, é claro, a sustentabilidade. A artista americana Susan Bell recicla as fezes de seus cavalos produzindo esculturas de animais como gatos, coelhos e cachorros. As peças servem para ornar jardins. Elas se decompõem lentamente, enfeitando-os e servindo como adubo.
Mas porque tantos questionamentos e tanta repulsa a cerca das fezes? Para Julia Kristeva o abjeto, tem grande importância por ser a regra que foge à exceção. Kristeva afirma, em seu livro Introdução à semanálise, que o mundo se organizou em polaridades que podem ser resumidas pelo interno e externo. A merda, assim como os outros mucos corporais, não fazem essa ponte. Transgridem.
A opinião é partilhada pela doutora em semiologia e professora da Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, Vera Casa Nova: "A grande idéia (ao falar de merda) é a idéia da transgressão, de tirar o espectador de seu lugar de passividade. Ele leva um choque e passa a ver o corpo de outra forma.”. Para Casa Nova, a transgressão é o fim da ditadura da beleza. A professora ainda aproveita para fazer uma reflexão: “O que somos nós? A perfeição? A beleza? Nos não somos nada. Somos exatamente isso: um pedaço de merda”.
O lado da merda
Se nas artes plásticas, os artistas podem se apoiar em diferentes formas, cores e textura das fezes, na literatura fica mais difícil se apoiar nos atributos físicos da merda. Por isso, os escritores têm outro mote. Eles se apóiam em diferentes significados que esses dejetos humanos podem ter para construir a peça literária.
No Brasil, o escritor Glauco Mattoso se destaca pela crítica social não através das fezes, mas de todo o abjeto. Não é incomum ler em seus poemas e poesias títulos como “Sonetário Sanitário” e “Penso, logo cago”. Dono de uma trajetória ímpar, Glauco Mattoso é, na verdade, Pedro José Ferreira da Silva, homem que perdeu a visão graças a um glaucoma. Por isso Glauco Mattoso, ou seja, glaucomatoso, aquele que é portador de glaucoma.
“Fiz a apologia da merda em prosa & verso, de cabo a rabo. Na prática, eu queria dizer pra mim mesmo e pros outros: ‘Se no meio dos poucos bons tem tanta gente fazendo merda e se autopromovendo, por que eu não posso fazer a dita propriamente dita e justificá-la? ’”. Foi dessa forma, que em entrevista ao site UOL, Mattoso justificou sua poesia visceral.
Outro autor brasileiro que se apóia nas fezes para criar um clima de transgressão em suas obras é Rubem Fonseca. Fonseca, diferente de Mattoso, é mais um crítico social que um prosador. O autor se esforça em criticar as relações humanas e temas metafísicos, como no conto Cropomancia, do livro Secreções, excreções e desatinos, que questiona porque Deus criou as fezes. Neste mesmo conto, o personagem criado por Fonseca cataloga suas fezes, tirando fotos diárias e depois tenta ler o futuro através delas.
De acordo, com Alexandre Rodrigues da Costa, pós doutorando em literatura brasileira pela faculdade de letras da UFMG, tanto para Rubem Fonseca, quanto para Glauco Matosso, utilizar as fezes como um artifício literário é uma forma de mostrar o outro lado do bonito e tirar o leitor de seu lugar de passividade, da simples contemplação do corpo belo, perfeito e simétrico desenhado por Da Vinci.
Fazendo merda nas artes plásticas
“Conteúdo: 30 gramas; conservado ao natural, produzido e enfrascado em maio de 1961; produzido por Piero Manzoni; made in Italy”. Dentro das 90 latas devidamente lacradas e etiquetadas estavam as fezes do artista plástico italiano Piero Munzoni. O caso clássico aconteceu em 1961, quando Munzoni defecou nas latas e titulou-as como Merde d’artsta ou Merda de artista.
Munzoni reflete o sentimento revoltoso dos dadaístas do início do século passado. O dadaísmo foi um movimento artístico que se iniciou em 1916, em Zurique, por jovens artistas franceses e alemães que, exilados na Suíça, eram contrários à Primeira Guerra Mundial. Abrangeram todas as formas de cultura, entre elas, a literatura e as artes plásticas. Um dos seus maiores representantes, Marcel Duchamp, escancarou a discussão em torno do que poderia ser considerado arte. Por meio dos ready-mades, o artista mostrou que a obra não dependia de uma estética e sim de fatores relacionando com o local onde as obras eram expostas, o valor e a significação que o artista dava para elas, validando-as como arte.
Em harmonia com as principais características do movimento - a negação da cultura e a defesa do absurdo, incoerência e caos - as obras de Muzoni geram discussões que são constantemente debatidas, mesmo na atualidade. Para o professor de filosofia Luiz Henrique Vieira Magalhães, Munzoni encara as latas de merda como uma ode ao choque e ao escândalo. Ele considera os argumentos usados para a interpretação da obra, que visa criticar o mercado das artes, quando o artista vende merda por ouro. Porém, concorda com Ferreira Gullar quando questiona a dimensão artística desse tipo de produção, da insistência do artista em afirmar uma convenção estabelecida anteriormente por outros. “É uma coisa que na verdade já foi feita com Duchamp, são variações do mesmo tema”, pontua.
Outro artista que inovou suas obras com o uso da bosta foi o alemão Martin Von Ostrowski que, em 2000, trocou a tinta a óleo pelas próprias fezes ao pintar um quadro de Hitler. Para ele, o artista é parte do incalculável mundo orgânico, podendo quase se perder nele. Trabalhar com a merda remete à busca de uma razão para se fazer arte. O artista vive em simbiose com os microorganismos e precisa deles para viver. Famoso por suas excentricidades, Ostrowski, além de ter feito outros quadros com fezes, também já usou, como matéria prima para algumas obras, seu esperma e afirma categoricamente: “Eu existo assim como faço digestão, assim como produzo sêmen”.
Esquisitices à parte, fazer o uso da merda como forma, subjetiva ou escrachada, de uma realidade, enriqueceu bastante a reflexão em torno da arte e as variadas interpretações que dela se pode criar. Apesar de que Rita Lee já dizia, “tudo vira bosta”.

Ou sobre como as fezes participam do imaginário cultural produzindo transgressão e questionando costumes estabelecidos.
De diferentes formas cores, tamanhos e texturas, os dejetos humanos expelidos pelo ânus, mais conhecidos como fezes, são uma boa matéria prima para qualquer artista. Junta-se o caráter contraventor e questionador que os restos humanos têm e pronto. Está aí um dos instrumentos e temas mais repulsivos e profícuo das artes.
Pode parecer estranho em primeira instância ou muito nojento falar desse assunto, mas as fezes estão ligadas às artes mais do que se possa imaginar. Seja na literatura, artes plásticas, cinema ou teatro a escatologia se mostra de várias maneiras. Na literatura vemos as fezes sendo utilizadas de forma conceitual, como é o caso de Glauco Mattoso, Rubem Fonseca e até mesmo Ferreira Gullar. Em 2006, o odor dos cinemas pesou com a estréia do filme do diretor Heitor Dhalia, o Cheiro do Ralo, em que a todo momento o personagem de Lorenzo, vivido por Selton Melo, afirmava categoricamente: "Esse cheiro que você está sentido não é meu. É do ralo". Até mesmo na moda, é possível encontras rastros dos excrementos em sapatos feitos de estrume de elefantes. Mesmo inspirando asco, esse ambiente não é tão feio quanto pode parecer.
Em Minas Gerais, o uberabense Mizac Limírio usou estrume de gado para compor seus quadros. O artista plástico emoldurou os excrementos em telas com o fundo trabalhado com pigmentos naturais, terra e pó de arenito, e esmalte sintético. Em entrevista ao site da UOL, o artista explica que, como é acostumado com o esterco, comum nas ruas do bairro onde mora, Jardim Espírito Santo, sua obra pode ser vista como um retrato da cultura da sua cidade. Uberaba é considerada a capital mundial do Zebu, uma espécie de bovino.
A relação entre a fisiologia merda e a arte se harmonizam do campo das significações. Biologicamente, as fezes são os materiais que restam da digestão. A etimologia da palavra remete ao latim faeces, que é o plural de resíduos. Por meio delas, pode-se fazer a análise, entre outras, dos hábitos alimentares, das diferenças genéticas e do stress pelo qual o indivíduo passou. O que é a obra de arte, senão a interação das emoções e da subjetividade do artista?
Essa é a opinião do mestre em literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Vinicius Pereira de Carvalho, ao avaliar a obra Mr. Mutt de Marcel Duchamp. Carvalho afirma em sua tese Literatura e abjeção: um estudo da imagem das fezes na obra de Rubem Fonseca que “defecar é um traço comum entre o artista e o leigo. Humanizado o artista, “artistiza-se” o contemplador, imprecisando-se os limites entre essas instâncias”.
Um grito de Merda
No teatro, um cocô originou o famoso “MERDA”, grito que os atores costumam dar antes de entrar no palco. Essa expressão nasceu na França. Reza a lenda, que um ator francês estava a caminho do teatro, onde iria apresentar uma peça muito importante. Críticos conceituados estariam presentes no espetáculo para avaliá-lo. Contudo, durante o percurso, aconteceram vários incidentes: passou por um incêndio, errou o caminho e, para finalizar, na porta do teatro, pisou numa bosta de cachorro. Fato é que, depois de todos esses obstáculos, a peça foi um sucesso, uma das melhores da carreira do ator. Por isso, hoje, quando o ator diz merda ao outro, está lhe desejando boa sorte.
Outra interpretação para a expressão nasceu no teatro antigo. Os nobres costumavam ir ao teatro de carruagem e os cavalos deixavam seus excrementos pelas ruas. O esterco era um indicador de público para os espetáculos. Então, os atores desejavam muita merda para que as peças estivessem sempre cheias.
A atriz Marisa Orth, em entrevista à revista Vip, trata o assunto de uma maneira mais subjetiva, não menos instigante: “Acho que o hábito de se falar merda antes de entrar em cena está ligado ao fato de que o trabalho é meio sujo, temos que lidar com a anti-vaidade. Se você entrar no palco querendo parecer chique não conseguirá relaxar e fazer o tem que fazer. Para quem está em cena, vergonha pouca é bobagem! Para mim a expressão vem de 'cagada', que significa sorte”, comentou.
E quem disse que na moda não tem merda? Um designer londrino que se apresenta como INSA criou um sapato feito de resina misturada com fezes de elefante. O calçado está exposto na galeria de artes britânica Tate. O artista produziu a peça em resposta ao pintor, também inglês, Chris Offili, que utilizou o mesmo material para a composição de alguns de seus quadros. Offili pintou a Virgem Maria negra, utilizando closes imagens da genitália feminina e estrume de elefante.
Por ser orgânica, a arte com esterco abrange, é claro, a sustentabilidade. A artista americana Susan Bell recicla as fezes de seus cavalos produzindo esculturas de animais como gatos, coelhos e cachorros. As peças servem para ornar jardins. Elas se decompõem lentamente, enfeitando-os e servindo como adubo.
Mas porque tantos questionamentos e tanta repulsa a cerca das fezes? Para Julia Kristeva o abjeto, tem grande importância por ser a regra que foge à exceção. Kristeva afirma, em seu livro Introdução à semanálise, que o mundo se organizou em polaridades que podem ser resumidas pelo interno e externo. A merda, assim como os outros mucos corporais, não fazem essa ponte. Transgridem.

A opinião é partilhada pela doutora em semiologia e professora da Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, Vera Casa Nova: "A grande idéia (ao falar de merda) é a idéia da transgressão, de tirar o espectador de seu lugar de passividade. Ele leva um choque e passa a ver o corpo de outra forma.”. Para Casa Nova, a transgressão é o fim da ditadura da beleza. A professora ainda aproveita para fazer uma reflexão: “O que somos nós? A perfeição? A beleza? Nos não somos nada. Somos exatamente isso: um pedaço de merda”.
O lado da merda
Se nas artes plásticas, os artistas podem se apoiar em diferentes formas, cores e textura das fezes, na literatura fica mais difícil se apoiar nos atributos físicos da merda. Por isso, os escritores têm outro mote. Eles se apóiam em diferentes significados que esses dejetos humanos podem ter para construir a peça literária.
No Brasil, o escritor Glauco Mattoso se destaca pela crítica social não através das fezes, mas de todo o abjeto. Não é incomum ler em seus poemas e poesias títulos como “Sonetário Sanitário” e “Penso, logo cago”. Dono de uma trajetória ímpar, Glauco Mattoso é, na verdade, Pedro José Ferreira da Silva, homem que perdeu a visão graças a um glaucoma. Por isso Glauco Mattoso, ou seja, glaucomatoso, aquele que é portador de glaucoma.
“Fiz a apologia da merda em prosa & verso, de cabo a rabo. Na prática, eu queria dizer pra mim mesmo e pros outros: ‘Se no meio dos poucos bons tem tanta gente fazendo merda e se autopromovendo, por que eu não posso fazer a dita propriamente dita e justificá-la? ’”. Foi dessa forma, que em entrevista ao site UOL, Mattoso justificou sua poesia visceral.
Outro autor brasileiro que se apóia nas fezes para criar um clima de transgressão em suas obras é Rubem Fonseca. Fonseca, diferente de Mattoso, é mais um crítico social que um prosador. O autor se esforça em criticar as relações humanas e temas metafísicos, como no conto Cropomancia, do livro Secreções, excreções e desatinos, que questiona porque Deus criou as fezes. Neste mesmo conto, o personagem criado por Fonseca cataloga suas fezes, tirando fotos diárias e depois tenta ler o futuro através delas.
De acordo, com Alexandre Rodrigues da Costa, pós doutorando em literatura brasileira pela faculdade de letras da UFMG, tanto para Rubem Fonseca, quanto para Glauco Matosso, utilizar as fezes como um artifício literário é uma forma de mostrar o outro lado do bonito e tirar o leitor de seu lugar de passividade, da simples contemplação do corpo belo, perfeito e simétrico desenhado por Da Vinci.
Fazendo merda nas artes plásticas
“Conteúdo: 30 gramas; conservado ao natural, produzido e enfrascado em maio de 1961; produzido por Piero Manzoni; made in Italy”. Dentro das 90 latas devidamente lacradas e etiquetadas estavam as fezes do artista plástico italiano Piero Munzoni. O caso clássico aconteceu em 1961, quando Munzoni defecou nas latas e titulou-as como Merde d’artsta ou Merda de artista.
Munzoni reflete o sentimento revoltoso dos dadaístas do início do século passado. O dadaísmo foi um movimento artístico que se iniciou em 1916, em Zurique, por jovens artistas franceses e alemães que, exilados na Suíça, eram contrários à Primeira Guerra Mundial. Abrangeram todas as formas de cultura, entre elas, a literatura e as artes plásticas. Um dos seus maiores representantes, Marcel Duchamp, escancarou a discussão em torno do que poderia ser considerado arte. Por meio dos ready-mades, o artista mostrou que a obra não dependia de uma estética e sim de fatores relacionando com o local onde as obras eram expostas, o valor e a significação que o artista dava para elas, validando-as como arte.
Em harmonia com as principais características do movimento - a negação da cultura e a defesa do absurdo, incoerência e caos - as obras de Muzoni geram discussões que são constantemente debatidas, mesmo na atualidade. Para o professor de filosofia Luiz Henrique Vieira Magalhães, Munzoni encara as latas de merda como uma ode ao choque e ao escândalo. Ele considera os argumentos usados para a interpretação da obra, que visa criticar o mercado das artes, quando o artista vende merda por ouro. Porém, concorda com Ferreira Gullar quando questiona a dimensão artística desse tipo de produção, da insistência do artista em afirmar uma convenção estabelecida anteriormente por outros. “É uma coisa que na verdade já foi feita com Duchamp, são variações do mesmo tema”, pontua.
Outro artista que inovou suas obras com o uso da bosta foi o alemão Martin Von Ostrowski que, em 2000, trocou a tinta a óleo pelas próprias fezes ao pintar um quadro de Hitler. Para ele, o artista é parte do incalculável mundo orgânico, podendo quase se perder nele. Trabalhar com a merda remete à busca de uma razão para se fazer arte. O artista vive em simbiose com os microorganismos e precisa deles para viver. Famoso por suas excentricidades, Ostrowski, além de ter feito outros quadros com fezes, também já usou, como matéria prima para algumas obras, seu esperma e afirma categoricamente: “Eu existo assim como faço digestão, assim como produzo sêmen”.

Esquisitices à parte, fazer o uso da merda como forma, subjetiva ou escrachada, de uma realidade, enriqueceu bastante a reflexão em torno da arte e as variadas interpretações que dela se pode criar. Apesar de que Rita Lee já dizia, “tudo vira bosta”.
Súplica ao Mestre
Mestre dos sofrimentos e das alegrias imploro a ti minha absolvição.
Há muito, tenho caído nas armadilhas tuas e desta vez não foi diferente.
Sei que és apático aos meus sentimentos, mas sempre arranjaste um jeito de me ludibriar com tuas ilusões e promessas de felicidade.
Tentei mais uma vez e, como foste condolente, achei que venceria.
Fiz tudo como mandaste.
Comecei com calma, cauteloso, não me entreguei de primeira.
Enganaste-me.
Tal fórmula não funcionou.
Vejo vossa obra em inúmeros casais, felizes criaturas emaranhadas de sonhos e desejos.
Deste a eles essa alegria.
Por que as nega a mim?
Às mães, concedes o incondicional.
Supre a carência dos que não tem ninguém com, desculpe o desrespeito, bichos!
A mim, deixaste esse amargor de fracassos.
E, por isso, peço-lhe que findes o meu sofrer.
Desista de mim.
Não nasci para ser teu servo.
Quando me envolvo, torno-me escravo do outro e não do senhor.
Ensinaste-me a arte do teu ofício.
Contudo, sabes, sou um péssimo aprendiz.
Estudei tudo pela metade e minha avidez me destroçou.
Não gostas de intensidade.
Ficas furioso, eu sei, quando alguns confundem tua vocação com a loucura e o desespero excessivo de um outro mestre, que às vezes se passa pelo senhor.
Esse outro eu conheço bem.
Mas dele, já me absolvi.
Agora peço ao senhor, Amor.
Tira-me dessa vida de erros.
Expulsa-me de tua escola.
Porque dela eu não pertenço mais.
Há muito, tenho caído nas armadilhas tuas e desta vez não foi diferente.
Sei que és apático aos meus sentimentos, mas sempre arranjaste um jeito de me ludibriar com tuas ilusões e promessas de felicidade.
Tentei mais uma vez e, como foste condolente, achei que venceria.
Fiz tudo como mandaste.
Comecei com calma, cauteloso, não me entreguei de primeira.
Enganaste-me.
Tal fórmula não funcionou.
Vejo vossa obra em inúmeros casais, felizes criaturas emaranhadas de sonhos e desejos.
Deste a eles essa alegria.
Por que as nega a mim?
Às mães, concedes o incondicional.
Supre a carência dos que não tem ninguém com, desculpe o desrespeito, bichos!
A mim, deixaste esse amargor de fracassos.
E, por isso, peço-lhe que findes o meu sofrer.
Desista de mim.
Não nasci para ser teu servo.
Quando me envolvo, torno-me escravo do outro e não do senhor.
Ensinaste-me a arte do teu ofício.
Contudo, sabes, sou um péssimo aprendiz.
Estudei tudo pela metade e minha avidez me destroçou.
Não gostas de intensidade.
Ficas furioso, eu sei, quando alguns confundem tua vocação com a loucura e o desespero excessivo de um outro mestre, que às vezes se passa pelo senhor.
Esse outro eu conheço bem.
Mas dele, já me absolvi.
Agora peço ao senhor, Amor.
Tira-me dessa vida de erros.
Expulsa-me de tua escola.
Porque dela eu não pertenço mais.
A construção do fracasso em cena.
“Ah! Com que rapidez a tão almejada liberdade de ação, de amor, de trabalho, enfim, de escolha, se transforma em pesadelo encharcado de angústia, já que não há escolha sem risco?” Jorge Forbes.
O monólogo “Que História Você Quer Contar”, de autoria de Guilherme Toledo, é o retrato de um ser humano que lida com as dificuldades da vida contemporânea. Com a direção do estreante Henrique Cruz, a peça mostra a construção de um homem, narrada e interpretada por Toledo. O cenário é simples, composto apenas por tijolos, que vão se moldando e dando forma aos lugares e situações vividas pelo personagem no decorrer do espetáculo.
É uma história de abusos e fracassos. Gilberto, um homem de aproximadamente trinta anos, foi violentado na infância pela babá, além de ter sofrido bulling durante toda a adolescência. Começou a faculdade de pedagogia, mas, por influência das tias, acabou trancando por ser um curso de meninas. Relacionou-se com algumas mulheres, porém nunca manteve um relacionamento estável. Atualmente, mora sozinho, sobrevive de vendas de enciclopédias e atura o chefe português escroto.
Percebe-se, ao longo da peça, que o personagem é avaliado e cobrado a todo o momento a atender às demandas da sociedade. Em uma cena, frases imperativas em inglês são jogadas ao ar pelos auto-falantes do teatro, ordenando ao personagem a ser o melhor, vencer, conquistar, tudo o que o mundo pós-moderno exige de seus habitantes. Os traumas que Gilberto viveu ao longo de sua jornada, juntamente com essa cobrança de vitória, o fizeram um colecionador de insucessos. Chega uma hora que ele grita: “Eu não agüento”. Fato certo é que ninguém agüenta.
Contudo, parece que o personagem se acomoda a esse estado de fracasso e o justifica colocando-se como aquele que não possui o que o mundo exigiu, isentando-o da busca por seus desejos. O psicanalista Jorge Forbes atenta para o fato e diz: “Além das aparências, a avaliação, em muitos casos atuais, é mística que irresponsabiliza a ação humana construindo equivalências, catalogando nossas ações em prateleiras burocráticas, para boi dormir”.
O monólogo “Que História Você Quer Contar”, de autoria de Guilherme Toledo, é o retrato de um ser humano que lida com as dificuldades da vida contemporânea. Com a direção do estreante Henrique Cruz, a peça mostra a construção de um homem, narrada e interpretada por Toledo. O cenário é simples, composto apenas por tijolos, que vão se moldando e dando forma aos lugares e situações vividas pelo personagem no decorrer do espetáculo.
É uma história de abusos e fracassos. Gilberto, um homem de aproximadamente trinta anos, foi violentado na infância pela babá, além de ter sofrido bulling durante toda a adolescência. Começou a faculdade de pedagogia, mas, por influência das tias, acabou trancando por ser um curso de meninas. Relacionou-se com algumas mulheres, porém nunca manteve um relacionamento estável. Atualmente, mora sozinho, sobrevive de vendas de enciclopédias e atura o chefe português escroto.
Percebe-se, ao longo da peça, que o personagem é avaliado e cobrado a todo o momento a atender às demandas da sociedade. Em uma cena, frases imperativas em inglês são jogadas ao ar pelos auto-falantes do teatro, ordenando ao personagem a ser o melhor, vencer, conquistar, tudo o que o mundo pós-moderno exige de seus habitantes. Os traumas que Gilberto viveu ao longo de sua jornada, juntamente com essa cobrança de vitória, o fizeram um colecionador de insucessos. Chega uma hora que ele grita: “Eu não agüento”. Fato certo é que ninguém agüenta.
Contudo, parece que o personagem se acomoda a esse estado de fracasso e o justifica colocando-se como aquele que não possui o que o mundo exigiu, isentando-o da busca por seus desejos. O psicanalista Jorge Forbes atenta para o fato e diz: “Além das aparências, a avaliação, em muitos casos atuais, é mística que irresponsabiliza a ação humana construindo equivalências, catalogando nossas ações em prateleiras burocráticas, para boi dormir”.
Tinha tudo para ser uma noite perdida.

Festas de família costumam não ser muito agradáveis, mas aquelas reuniões com parentes que você conheceu quando tinha dois anos de idade em pleno sábado à noite é de matar. Pessoas que você desconhece, mas que entoam quase em coro, “como você cresceu, sua mãe te deu chá de bambu quando pequeno? Como está bonito, está estudando? Trabalhando?”. Foi em uma noite, aparentemente, perdida que fui encontrado por Valéria.
Diferente das outras parentes, que mais pareciam ter saído de um filme de Almodóvar, Valéria sentou ao meu lado, me beijou o rosto e falou, sem exclamar, “sou sua prima, prazer”. O gesto carinhoso e gratuito me conquistou. A partir desse momento, a curiosidade de conhecer aquela mulher tornou a noite em uma festa de descobertas.
Valéria Santos de Lima é mineira de Belo Horizonte, nascida e criada no bairro Grajaú. Faz aniversário em outubro, tem 50 anos e é do signo de libra. Tem por volta de 1,75 de altura, é branca, robusta, cabelos lisos, estilo chanel, olhos castanhos claros e um sorriso de propaganda de creme dental. Possui uma doçura na fala, porém impõe-se com facilidade quando o assunto diz respeito às suas convicções.
Sua infância foi como a da maioria das crianças nascidas nos anos 60, vivida nas ruas perto de casa, cheia de brincadeiras criativas e simples, como bola de gude, rodar pião, descer morro com carrinho de rolimã, queimada e outras tantas. Segunda filha de uma família de oito irmãos, Valéria tinha, também, suas obrigações domésticas. Cada filha da dona Maria Gonçalves ficava encarregada de uma tarefa na casa. Ela lembra da correia do pai que esperara quem não cumprisse direito seus deveres. Nos estudos, foi sempre a primeira da turma. Este tipo de problema não atormentava os pais.
Valéria foi uma adolescente muito a frente de sua época. Começou a trabalhar cedo, na sapataria do pai, Del Rio Lima, no centro da cidade. Aos quinze anos, já pagava seus estudos no colégio Pan-americano. Sua adolescência foi regada de festas e amigos. Saía bastante para bares e boates, uma vez que sua prima e confidente era cantora da noite. Segundo ela, curtiu o que podia e o que não podia dessa fase. Nunca se envolveu com drogas, mas a cerveja era uma paixão. Entrou, em 1981, para a faculdade Newton Paiva no curso de Ciências Contábeis.
Já mulher, aos 24 anos, Valéria conheceu uma das maiores paixões de sua vida. Contudo, ele era casado. Ela se mudou para São Paulo, movida por esse amor, largando a faculdade. Trabalhou em lugares que a deram grande experiência profissional. Viveu um romance de 20 anos com esse homem, nascendo desse relacionamento, um filho.
Sua vida se reformulou com a chegada dessa criança. Voltou para Belo Horizonte, alugou um apartamento no bairro Jardim América e arrumou um emprego de secretária. Nesse mesmo trabalho foi promovida a auxiliar de escritório e, em seguida, a gerente comercial. Firmou-se profissionalmente na área comercial, exercendo essa função em mais duas empresas que grande renome em Minas Gerais. Seu filho nasceu e recebeu todo auxilio necessário do pai, que o visitava constantemente. Valéria se considerava feliz naquela época, até que seu namorado teve que mudar para Vitória com a família, deixando-a extremamente chateada. Contudo, tocou sua vida e continuou mantendo seu relacionamento, mesmo à distância.
Em 1997, Valéria sofreu as conseqüências de não ter um curso superior em seu currículo ao ser substituída por um profissional mais especializado. Assim, juntou-se com alguns amigos e montou uma empresa especializada em vendas e manutenção de ar condicionados em Ipatinga. A firma conseguiu um bom faturamento durante dois anos, porém, devido à alta concorrência, entrou em falência no final de 1999. Nesse tempo, Valéria já freqüentava um centro espírita que também era um abrigo para deficientes mentais e físicos, chamado NAEMC. Devido à falta de emprego, foi chamada para gerenciar a instituição filantrópica, aceitando prontamente, já que estava muito envolvida com a causa e com seu desenvolvimento espiritual. Porém, por não concordar com algumas atitudes dos dirigentes do lugar em que trabalhava, se demitiu, retornando a Belo Horizonte, onde tinha um apartamento. Para ela, Ipatinga foi um ensinamento sobre como é preciso cuidado ao se tratar com religião. “A linha que separa dedicação do fanatismo é muito tênue”, ressaltou.
Voltar a Belo Horizonte significou, para Valéria, repensar muitas coisas de sua vida. Esse retorno fez com que ela terminasse o relacionamento com aquele homem que nunca a assumiu e que nunca iria a assumir. Ela e seu filho sofreram com a separação. Entretanto, foi a partir dessa decisão que sua vida se tornou seu principal foco. Tornou-se corretora de imóveis, conquistando êxito profissional.
Em meio a esse processo de reconstrução, Valéria, que já tinha passado por outras religiões, encontrou no protestantismo um lar acolhedor. Frequentou várias denominações e experimentou, novamente, o fanatismo, ao se dedicar excessivamente a algumas igrejas. Hoje, participa de um grupo de estudantes da bíblia, lugar onde a proporcionou conhecer pessoas afins a ela. “Não vou tentar te converter”, adiantou-se a começar a falar da sua religião. Por meio do Evangelho, Valéria conseguiu centrar-se em seus objetivos, romper com questões que a incomodavam, como problemas familiares. Segundo ela, depois que Jesus se tornou o Senhor de sua vida, que as coisas começaram a dar certo de uma forma sustentável. Valéria se considera uma mulher a caminho da felicidade. Acredita que ainda faltam algumas coisas, mas ela tem certeza que o que ela precisar, irá conseguir. Esse é o conforto que Deus a proporciona.
Minha prima, que antes desconhecia, se abriu para mim de uma maneira que nem meus parentes mais próximos se mostram. É uma crente bacana. Cheguei a me esquivar quando começou a falar de religião, mas dá pra perceber o quão resolvido era esse assunto na vida dela. E como nada é perfeito, eu e Valéria tivemos que parar nosso papo, porque minha mãe queria me apresentar outra prima que eu não fazia a mínima idéia de quem fosse. Mas não tinha importância, a festa já tinha valido.
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