segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Não tema o medo


Por Gabriela Rosa e Gustavo Monteiro

Foto: Bruna Cris

Mais um dia de labuta para João. Só de pensar em chegar àquela sala médica, as mãos estremecem. O coração pulsa forte e rápido ao passar pelos corredores até seu local de trabalho. Já de uniforme, entra na sala branca, limpa e esterilizada. A obrigação de ter que cumprir sua função lhe causa uma crise de choro compulsivo. Com as mãos suadas, ele sabe que terá que encarar os mortos. Terá que maquiá-los, retirar vísceras, ornamentá-los. Trabalhar com a morte deixou de ser uma paixão e passou a ser uma angústia sem fim.

João tem 37 anos, é casado, pai de uma filha que completou seu quinto aniversário há quatro meses e o melhor tanatopraxista da Santa Casa de Belo Horizonte. A tanatopraxia é uma técnica moderna de preparação de corpos humanos, vitimados das mais variadas formas. Por meio da aplicação de produtos químicos, trata-se o morto para que este esteja conservado e com boa aparência para o velório.

Depois de ver o corpo do pai sendo tratado para o enterro, João se interessou pela profissão. E se apaixonou pela morte. Começou a freqüentar velórios de desconhecidos, a fazer amizades com pessoas que compartilhavam essa diferente atração. Procurou um curso e há 15 anos exerce a tanatopraxia. Há cinco anos, porém, começou a ter muitas dificuldades para trabalhar.

João começou a apresentar sintomas de medo, tristeza e depressão. Suas mãos tremiam, sentia-se sufocado, ansioso e angustiado ao ter que fazer o serviço que há tanto lhe era agradável. Já não se alimentava direito e, ao chegar ao trabalho, percebia que uma batedeira estranha no peito e medo de não conseguir executar suas atividades laborais. Devido a essa dificuldade, se afastou do emprego por um ano e meio e buscou ajuda psiquiátrica.

Após o período de afastamento, voltou ao hospital, retornando também às angústias que o lugar lhe causava. João havia piorado. Estava sendo medicado por alguns psiquiatras que o consideravam psicótico, uma vez que ele apresentava sinais de alucinação e distanciamento da realidade. Mas a questão principal da dor de João ainda era o trabalho. Ele achava que os mortos sentiam dores ao serem cortados. Sentia-se arrependido ao fazer aquele trabalho.

“A minha mão não consegue parar de esquecer”, relatou João para o psiquiatra Ênio Rodrigues da Silva no dia seis de novembro de 2010. Psiquiatra do Centro de Referência em Saúde Metal, CERSAM, há 14 anos, Ênio recebeu o caso de João, encaminhado por uma psicóloga que estuda tanatopraxia no doutorado. No novo tratamento, João começou a falar mais sobre sua vida.

A angústia originada pelo emprego teve início em 2005, quando sua filha nasceu. Ele a imaginava sendo tratada pelas técnicas da tanatopraxia e tais pensamentos o desnorteavam. Em seu prontuário, João se queixa: “com o tempo eu comecei a não agüentar, comecei a ficar estranho ao fazer esse tipo de serviço, comecei a ter pânico. Eu pensava nela, na minha filha”.

Em uma conversa sobre o caso, no CERSAM da região leste de Belo Horizonte, Ênio explica a abordagem que utiliza em casos como o do João. Descolado, com espírito jovem e alto astral, características que contrastam com seus 43 anos e cabelos grisalhos, o médico chega à porta de sua sala onde um paciente o espera. “Eu gosto de doido, mas não fica muito perto não”, brinca o psiquiatra. Tratado com muito carinho por seus pacientes, Ênio é um grande defensor da luta antimanicomial. Além de psiquiatra do CERSAM, leciona no curso de medicina da faculdade Unifenas e foi um dos colaboradores da 2ª Mostra de Arte Insensata, exposição de quadros e esculturas de usuários do sistema de saúde mental.

Para o psiquiatra, a primeira coisa a ser vista, em casos clínicos, é o sujeito, buscando encontrar a origem do sintoma e a partir dessa elucidação, medicar o paciente. O medo precisa ser desvendado e contextualizado para que haja um tratamento sustentável. “É preciso pegar o sintoma medo, colocá-lo entre parênteses e ir ao sujeito, à pessoa”, exalta o médico. Pelo diagnóstico de Ênio, o medo de João ao encarar o trabalho está ligado à sua incapacidade de saber lidar com a vida, dificuldade esta que aumentou com o nascimento de sua filha.


O tanatopraxista, em uma de suas crises, foi remanejado de função no hospital onde trabalhava, mas resolveu voltar ao antigo serviço, pois se sentia pouco produtivo na nova função. Vê-se, então, a insistência em continuar a alimentar o desejo que o paralisa, que o deprime. É a partir dessa percepção que se inicia o tratamento. A vertente biológica da psiquiatria, segundo Ênio, busca categorizar os sintomas e tratá-los. Já uma vertente mais humanista da profissão, visa cuidar do indivíduo, inseri-lo num contexto social para que haja a construção de um equilíbrio ou resolução para a patologia do paciente.

Ênio enxerga o medo como um sentimento vital para o homem e não como uma doença. Em uma era virtual e contemporânea que possibilita ao ser humano várias possibilidades de entretenimento, trabalho, comunicação e distrações, a angústia toma diferentes formas e se adéqua a novas realidades. As pessoas criam defesas para seus medos e se reformalizam para conseguir lidar com eles. Para o psiquiatra, saúde não é ausência de doença. “A doença é uma perda ou fragilização da capacidade de renormalizar os acontecimentos para a adaptação de realidades”, assegura.

A partir dessa premissa, precisa-se repensar o sentido que o indivíduo dá ao medo. Tal sentimento é nocivo, quando ele fica maior que o sujeito. De acordo com o psiquiatra, o medo é intrínseco à psique do ser humano, tornando-se uma mediação entre uma reação muito radical e a falta de ação. O excesso e a escassez são o perigo: se tem pouco medo, o sujeito se atira demais, se tem muito, se isola.

Medo de perder o emprego, de não conseguir pagar as contas, de não passar no vestibular, perder um ente querido: o medo está presente em tudo. Ênio exemplifica o medo, inclusive em sua profissão: “tem anos que trabalho com gente doida em crise. Eu tenho medo. Quando vejo um paciente que coloca à prova minhas habilidades e competências, eu tenho medo, eu parto do medo. Se eu vou sem medo, sei que vou levar. A medida da decisão certa na hora certa vem de uma dosagem de medo. O medo vai intermediar o meu poder de agir, a minha decisão. Quem não tem medo nesse mundo?”.

A psicanalista freudiana Martha Célia Vilaça Goiatá trabalha com crianças há 27 anos e compartilha da opinião do psiquiatra. Comumente, a partir dos oito meses, a criança desenvolve um estranhamento do outro, proveniente do reconhecimento das novidades do mundo. Esse comportamento é visível quando o bebê se recolhe no ombro do pai com certa repulsa, se escondendo do que lhe é diferente. Marta acredita no medo como construção da constituição do sujeito.

Na medida em que a criança vai crescendo, ela busca artifícios para conviver com esse estranhamento, como o desenvolvimento da linguagem e criação de fantasias. São três as maiores situações conflituosas do indivíduo, segundo Freud: o relacionamento com o outro, o enfrentamento de intempéries e dificuldade em lidar com a morte. “Para encarar tais fatos, recursos são criados e medos são construídos como anteparo para que a criança consiga interpretar esse confronto com o outro e com o mundo”, pontua a psicanalista.

Manifestações recorrentes desse tipo de defesa, para a criança, é o aparecimento de pesadelos, o xixi na cama, entre outros tantos. Marta conta o exemplo da própria filha que, quando pequena, assistiu, com a babá, uma cena forte de violência na televisão. Como a psicanalista estava trabalhando, a menina se refugiou na casa da vizinha, onde achou que tinha mais proteção.

O medo, porém, é um sentimento que tem, também, características fisiológicas. A primeira ordem parte das amídalas. Perigo. A segunda parte do córtex. Fugir. As pupilas se dilatam, o sangue se concentra do cérebro e no coração, taquicardia. No pulmão os brônquios dilatam para receber mais oxigênio, você passa a respirar mais rápido e ofegante. Os rins produzem adrenalina e o sangue corre mais rápido em suas veias. Cada célula do seu corpo passa a produzir, em uma escala maior, energia. O resultado disso é um corpo humano mais forte e resistente e uma pessoa com medo.

No livro Cérebro Emocional, de Joseph LeDoux, fica mais do que provado que o medo é físico e social. Principalmente no que diz respeito à forma de transparecê-lo. “Quando você sente medo isso é uma experiência individual. Agora como você vai dar vazão a esse medo, como ele ai interferir na sua conduta cotidiana isso já é social. Porque vai depender da interação com os outros e também interferir nela”, explica o sociólogo e professor universitário, Wilson Cruz.

Para o socilólogo, a origem do medo está no tecido social. “As pessoas têm medo do que é externo a elas. Ou seja, em certa medida, a origem do medo está na estrutura social. A gente pode dizer que todo mundo experimenta o medo, embora não de forma semelhante. Porque o que vai determinar a intensidade desse medo é o lugar que a gente ocupa, a forma como somos educados. Até o espaço geográfico interfere na forma como a gente sente medo. Por exemplo, uma mãe pode até sentir medo de muita coisa, mas não sempre deixa transparecer para o filho, se mostrando forte”, analisa.

Por outro lado, a ausência de medo colocaria em risco a estrutura social. De acordo com Wilson, sem medo as pessoas não sentiriam necessidade de obedecer a regras. Os impulsos que hoje os indivíduos controlam ao estarem inseridos na sociedade, por medo da força coercitiva do estado, não teriam mais motivos para existir.

De acordo com o livro Sem Medo de Ter Medo, de Tito Paes de Barros Neto, valores sociais, como respeito ao próximo e até mesmo sentimentos como o amor, companheirismo e ódio, deixariam de existir. É justamente esse medo, originado na estrutura social, que permite a perpetuação da civilização humana como conhecemos. Isso porque é atrás de proteção e segurança social que o homem estipula novos objetivos e metas.

“O medo normal, em uma proporção que não impede que você faça nada, é saudável. Mas a síndrome do pânico nunca me ajudou em nada”, declara Fernando Limões, 23, estudante de engenharia ambiental. “Uma vez eu estava com uma namorada na roda gigante de um parque de diversões que de vez em quando tem no Minas Shopping, eu tenho medo de altura, quando estávamos lá no alto eu comecei a ter uma crise, e comecei a pedir para descer, fazer sinal para o operador do brinquedo parar. Não estava na minha vez de descer, mas eu tive que descer, não conseguia ficar no brinquedo, tinha a sensação que ia morrer ”, relata.

Enquanto roda os dedos displicentemente sobre o rótulo de uma cerveja, Fernando conta que descobriu sofrer da síndrome há dois anos. Nesse período, começou o tratamento e parou algumas vezes, tomou medicamentos e fez acompanhamento com psicólogos. Ele afirma que a síndrome não é uma doença, mas já o impediu de fazer algumas coisas. Explica ainda que o medo que sente da morte, não advém de situações externas, como uma bala perdida ou acidente de carro. “É um medo interno, de dentro do seu corpo, de que você vai morrer porque passou mal, teve um infarto ou alguma coisa assim”, exemplifica.

A síndrome do pânico é uma das variações do medo considerado saudável e normal. Além dela, ainda existem as fobias e a chamada doença de Urbach-Wieth em que a pessoa não sente medo nenhum, de nada, por causa de uma má formação das amídalas.

“Quando cada crise termina é como se você tivesse acabado de subir uma montanha empurrando uma pedra”, enfatiza Fernando. O receio de ficar repetindo o Mito de Sisifo, personagem da mitologia grega que é condenado pelos deuses a passar a eternamente a empurrando uma pedra morro acima para depois vê-la rolar para baixo, faz com que o paciente com síndrome do pânico tenha pavor de uma próxima crise. Isso, por sua vez, aumenta essa probabilidade.

Agora as crises pararam. Com ajuda de tratamento médico e medicação a situação está controlada. Hoje o jovem que já deixou de sair de casa de ônibus, evitou sair à noite e preferia freqüentar locais que tivessem algum hospital por perto, sai para balada à meia noite e sozinho.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Fotógrafo mineiro Eustáquio Neves ganha panorâmica no Museu de Arte da Pampulha



O fotógrafo mineiro Eustáquio Neves apresenta sua primeira panorâmica no MAP, Museu de Arte da Pampulha, a partir do próximo sábado, 18, às 16 horas. Promovida pela Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Fundação Municipal de Cultura, a mostra tem entrada gratuira e pode ser visitada de terça a domingo, das 9h às 19h.

A busca por meios para a materialização de ideias em imagens está na origem do trabalho de Eustáqio Neves. O artista apresenta os desdobramentos da pesquisa visual iniciada ainda na juventude, com sua aproximação da linguagem do cinema. Sua obra potencializa, também, o processo a partir dos conhecimentos adquiridos com sua formação em Química e no definitivo encontro com as técnicas fotográficas.

Se num primeiro momento a intenção era experimentar e entender os limites da linguagem técnica e da manipulação das imagens, como na série “Futebol”, em outro, o artista se volta para uma reflexão temática. O trabalho adquire outras leituras. "Minhas fotos são autobiográficas", define o fotórgrafo.

Tal característica evidencia os aspectos utilizados por Eustáquio Neves advindos da opressão. Pode-se perceber essas nuances na série “Boa Aparência” ou no impactante conjunto de imagens batizado de “Máscara de Punição”, feita a partir de um antigo retrato de 3x4 de sua própria mãe.

Eustáquio Neves nasceu em Juatuba e, atualmente, vive e trabalha em Diamantina. Fotógrafo e videoartista autodidata, o artista iniciou a experimentação com a fotografia em 1989, quando começou a desenvolver técnicas alternativas de manipulação de negativos e cópias de imagens.

Realizou diversos projetos individuais ao longo de sua carreira. Eustáquio Neves apresentou fotos na exposição “Madrid Mirada”, em Madri, na Espanha (2008); na “International Photo Magazine”, em Nova York (2007), e no “16º Festival de Mídia Eletrônica, o Videobrasil”, em São Paulo (2007). Outra exposição de destaque foi “Memórias”, realizada no Centre Régional de La Photographie, na França (2002). Entre as coletivas, destacam-se “Identidades Contrapostas”, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo (2008), e “Cidadania... Brasileiros”, no Centro Cultural São Paulo (2007).

Durante a exposição de Eustáquio Neves, o Museu de Arte da Pampulha promove duas ações educativas. A primeira, direcionada ao público de todas as idades, é a oficina “Capturando Imagens com uma Câmera Escura”. A segunda é a “Biblioteca do Artista”, montada na Biblioteca do Museu durante a exposição: uma estante que abrigará os livros de referência na formação e no trabalho do fotógrafo. O MAP fica localizado na Avenida Otacílio Negrão de Lima, 16.585, Jardim Atlântico.
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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Votem pelo 2º turno



Nunca estive tão feliz em toda minha vida. Juro, não imaginava que participar das eleições fosse tão legal. A família toda está radiante! Papai trocou as telhas lá de casa, Mamãe tem o que cozinhar e eu e meus irmãos ganhamos cadernos e canetas novas. Olha que beleza, essa aqui ainda não falhou nenhuma vez! E para aumentar minha felicidade: teremos 2º turno!
A professora lá na escolinha da comunidade vive falando umas baboseiras que eu não entendo: que os políticos sujam as ruas com propagandas, que eles não pensam nessa tal sustentabilidade, que a cidade virou um grande lixo. “Quanta imundice produz esses santinhos”, diz revoltada. Esses santinhos são mesmo santos, graças a Deus! Por causa deles que minha vida melhorou. Não só desses papeizinhos sagrados, mas, também, dos cartazes, outdoors que descasam com as chuvas, cavaletes. É deles que tiro meu sustento.
Desde quando Papai conseguiu largou a bebida, nos mantemos com os papelões que o povo deixa na rua. Sempre tive vergonha de andar de sinal em sinal pedindo dinheiro praquele pessoal que fingia que eu nem existia. Amigos? Escola? Um cobertor e uma esteira? Eu nem sabia o que era isso. Mamãe vivia emburrada essa época. Discussões a toda hora no meio da avenida, gente estranha nos rondando a todo minuto. Mas, falar do passado me entristece, vamos falar do 2º turno, que me deixa alegre.
Eu sei, eu sei que tem muita gente chateada por causa disso. Um bocado queria que essas eleições acabassem de uma vez. Gente estranha. Eu sei que a papelada vai ser menor, mas, ainda assim, vai ser maior do que eu estou acostumado.
Lá em casa, todos trabalham. Eu e meus irmãos vamos para a escola cedinho. Saímos juntos com Papai e seu carrinho (não sei por que ele chama de carrinho, aquilo me parece um caminhão de madeira). Mamãe fica em casa arrumando comida e depois vai pra igreja. Ah, eu podia passar o resto da minha vida naquela igreja, parece aqueles palácios das histórias que a professora conta, sabe?! Mas Mamãe também trabalha, só que nos finais de semana. O ramo dela é outro: as latinhas. A feira hippie, diz ela, é uma benção nas férias.
Bom, depois da escola, eu e meus irmãos almoçamos em casa e vamos ajudar o Papai. Já até conseguimos uma grana entregando os milagrosos santinhos em uma esquina no centro. E eles ainda deram o dinheiro da passagem.
Mamãe ora todo dia pela união da nossa família. A gente briga sim, ela me bate às vezes, mas ela aprendeu a conversar. O Papai aprendeu a ouvir. Ela é meio chata com essas coisas de Jesus, mas a gente releva. Isso faz bem a ela. E agora, com as eleições, tá todo mundo manso. Depois falam que dinheiro não traz felicidade.
Então é isso, gente. Obrigado aos que leram até aqui. Desculpem por pedir de volta esse papel, mas quando as eleições acabarem, ele vai ser muito valioso. E lembrem-se: continuem fabricando os santinhos. Enquanto eles estiverem nas ruas, eu terei o que comemorar. E, ah, ajudem sempre a fazer um 2º turno, hein?!

Atenciosamente,

Zé.


José recolhe os textos das mãos dos passageiros, quinze cópias feitas à mão e corrigidas pela professora. Sai do ônibus que o levara ao encontro de seu pai, faceiro como nunca, com a satisfação de quem cumpriu seu dever.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

As confissões de um anjo nada pornográfico.

“Naquele momento, percebi que a solidão nasce da convivência humana”. Nelson Rodrigues

Por Gabriela Rosa e Gustavo Monteiro

Na contradição, o anjo pornográfico da dramaturgia se mostra um reacionário. Nelson Rodrigues fala do amor eterno, do pão com ovo, de lêndeas e piolhos, Guimarães Rosa, esquerdas e direitas, enfim, é uma confissão do cotidiano brasileiro. Na sétima reimpressão do Óbvio Ululante, o dramaturgo e jornalista se apóia em acontecimentos do dia-a-dia, notícias e, principalmente, em suas lembranças no Rio de Janeiro. Memórias tão presentes na obra que dão a ela o subtítulo Primeiras Confissões. A compilação das crônicas de Nelson Rodrigues para O Globo, entre dezembro de e 1967 e julho de 1968, feita por Ruy Castro, foi publicada em 1993 pela Companhia das Letras.

De linguagem acessível para a época e com certa liberdade de expressões, sempre respeitando a norma culta da língua, Nelson aborda a realidade da vida do brasileiro de uma forma singela e ímpar. Por meio de suas experiências, o autor descreve cenas saborosas à leitura, dando suporte às suas teses sobre a sociedade tupiniquim e suas peculiaridades. O amor é duradouro e único, como na passagem “quem nunca desejou morrer com o ser amado, não conhece o amor, não sabe o que é amar”. Vemos, então, um Nelson Rodrigues despido da pornografia destilada em sua dramaturgia. É um homem de pudores, um ser apaixonado.

Pouco se pode perceber da escrita sexual do dramaturgo no livro. Mesmo porque, o sexo é sempre retratado pela ótica de uma criança que não percebe quando os rostos dos noivos da vizinha fatal mudam. Esse episódio é narrado na crônica A Última Mulher Fatal (pág.83). Nelson Rodrigues vai além e questiona o sexo. “Por que dizer aquilo a meninos e meninas e não cabras? O sexo, estritamente sexo, nada tem a ver com o pobre e degradado humano. É, repito, um problema dos já referidos bezerros.” E conclui: “E nunca ninguém se dispôs a ensinar uma educação amorosa”. Não é possível ignorar o momento em que o país vivia. Era 1968, primavera de praga e movimentos estudantis por todo o mundo.

Esse contexto social não pode ser ignorado para entender a obra de Nelson Rodrigues e seu posicionamento reacionário. Por ter sido escrita naquele ano, o livro não pode estar alheio às modificações sociais que eclodiam. Uma delas, a greve geral francesa, ganha atenção especial na crônica O Héroi sem Risco (pág. 267). Nelson critica a revolução que é feita na França, chamada por ele de revolução cultural, que não tem qualquer causa. “... e por que ninguém morre na França? Porque lá não existe uma causa nítida, uma causa precisa. E só se morre, ou só se mata por uma causa”.

Está aí um dos traços do Nelson reacionário que dedicou crônicas como Jovens sem Amor (pág. 100) e O Jovem Monstro (pág. 107), para discutir sobre os jovens atuais. Os mesmos que no ano anterior realizaram a revolução cubana e que ao longo dos anos 60 fundaram, no Brasil, grupos como Juventude Universitária Católica [JUC] e Juventude Operária Católica [JOC]. Em um momento de Pra frente Brasil, Nelson queria que o Brasil olha-se pra trás.

Outro ponto preponderante à obra de Nelson é a sátira aos brasileiros. O autor os encara como seres ignorantes que desconhecem sua beleza e inteligência. O deboche surge em várias crônicas, mesmo quando não é o assunto central. Em Sem medo do Conselheiro Acácio (pág. 147), percebe-se, claramente, essa inclinação: “O brasileiro não nasceu para ser inteligente. E direi mais: - nem pode ter um parente inteligente. Parece exagero ou piada. Nada mais trágico para uma família brasileira do que ter, em seu seio, um caso de inteligência”.

Se por um lado o autor afirma que o brasileiro não pode ser inteligente, por outro, reconhece a capacidade não só brasileira, mas de todo o mundo, de se reinventar. Na crônica A Vítima Obrigatória (pág. 64), a frase de abertura é: “O ser humano é o único que se falsifica”. E termina o parágrafo afirmando: “Nunca vi um marreco que vira outra coisa. Mas o ser humano pode sim desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo”. Esses são artifícios utilizados pelo dramaturgo para tratar das mudanças de comportamento que aconteciam nos anos sessenta. Durante a adolescência de Rodrigues, os homens e jovens se apressavam em dar lugar às mulheres nos bondes e ônibus. Isso já não acontecia em 68. Em compensação, nos casamentos, as pessoas se davam o luxo de estarem descontentes com o relacionamento. Fica claro, assim, que cada vez mais o comportamento humano se renovava na frente de Nelson, que nem sempre aprovava as novidades. Isso, mesmo quando assentia com a cabeça para logo depois abanar o rabo.

Para alcançar os leitores em suas crônicas, Nelson usava a narrativa. Essas se baseiam em personagens famosas do cotidiano brasileiro, mas também é comum que o autor apresente ao público marcas de sua infância. É por meio do lugar comum em que elas se encontram que a ligação com o leitor é feita. Os temas abordados são tratados como uma ponte do relato para a reflexão. Apesar de usar muitas vezes o tom de deboche, o autor consegue ser poético, no que concerne a uma busca à sensibilização da cena e, consequentemente, do leitor. “É a farmácia que não morre. Em seu lugar levantaram um edifício. Mas em mim ela não morre”.

Amigo de esquerdistas e simpatizante dos militares, o autor não se incomodava muito em ser contraditório. Em uma situação especifica, vemos o uso da sátira pelo autor: seu tratamento com Dom Helder Câmara. Ao longo dos oito meses em que suas crônicas foram escritas, Nelson debocha, em diversas delas, da posição do religioso em relação à mídia. Quando vai a um programa de televisão o Arcebispo Vermelho é perguntado sobre o amor livre. “Por que falar de amor livre se o Nordeste passa a fome?”. Pronto. A partir daí, a ironia do dramaturgo ganha força quando todos os acontecimentos são relacionados à fome no Nordeste. Em muitas crônicas que se seguem, Nelson usa esse lugar comum ironizando até mesmo os outros tipos de fome.

Em compensação, outra personalidade brasileira é lembrada com enorme admiração: Guimarães Rosa. Em suas cinco primeiras crônicas, Nelson tem como pano de fundo a morte do escritor e linguista brasileiro. Em Nenhum vento pode apagar (pág. 25), se discute a obra do autor mineiro. Já em O Grande Homem (pág. 28), é discutido o velório do Velho Guima, considerado por Nelson um grande homem. O dramaturgo afirma que esses grandes homens estão fadados a um velório distante e impessoal. "Passei na academia (Academia Brasileira de Letras) uns dez, quinze minutos; e sai de lá certo que o grande homem é o menos amado do seres. O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza".

Nelson nasceu pernambucano e, ainda criança, se tornou carioca. Teve uma infância difícil, de vontades, que metaforizaram boa parte das crônicas de O Óbvio Ululante. Adolescente e já jornalista, sofreu a perda de seu irmão e pai, acarretando grandes além dificuldades financeiras. Mas, reergueu-se, ajudado por um amigo de seu pai, e começou a trabalhar na redação de O Globo. Foi durante a juventude que Nelson começou a escrever teatro, que diria muito da vida brasileira, a vida como ela é. O dramaturgo tinha um escracho elegante em suas peças e se auto-intitulava o anjo pornográfico. Na ficção, Nelson o era, brilhantemente! Mas na vida, o autor deixou um legado de crônicas que expõe o doce amargo de uma escrita que remete ao sentimento experimentado a cada história contada por esse grande mestre da cultura literária e teatral brasileira.

MAS QUE MERDA! UM PANORAMA CULTURAL DO FEDOR QUE NÃO SE SENTE.

Por Gabriela Rosa e Gustavo Monteiro



Ou sobre como as fezes participam do imaginário cultural produzindo transgressão e questionando costumes estabelecidos.


De diferentes formas cores, tamanhos e texturas, os dejetos humanos expelidos pelo ânus, mais conhecidos como fezes, são uma boa matéria prima para qualquer artista. Junta-se o caráter contraventor e questionador que os restos humanos têm e pronto. Está aí um dos instrumentos e temas mais repulsivos e profícuo das artes.

Pode parecer estranho em primeira instância ou muito nojento falar desse assunto, mas as fezes estão ligadas às artes mais do que se possa imaginar. Seja na literatura, artes plásticas, cinema ou teatro a escatologia se mostra de várias maneiras. Na literatura vemos as fezes sendo utilizadas de forma conceitual, como é o caso de Glauco Mattoso, Rubem Fonseca e até mesmo Ferreira Gullar. Em 2006, o odor dos cinemas pesou com a estréia do filme do diretor Heitor Dhalia, o Cheiro do Ralo, em que a todo momento o personagem de Lorenzo, vivido por Selton Melo, afirmava categoricamente: "Esse cheiro que você está sentido não é meu. É do ralo". Até mesmo na moda, é possível encontras rastros dos excrementos em sapatos feitos de estrume de elefantes. Mesmo inspirando asco, esse ambiente não é tão feio quanto pode parecer.

Em Minas Gerais, o uberabense Mizac Limírio usou estrume de gado para compor seus quadros. O artista plástico emoldurou os excrementos em telas com o fundo trabalhado com pigmentos naturais, terra e pó de arenito, e esmalte sintético. Em entrevista ao site da UOL, o artista explica que, como é acostumado com o esterco, comum nas ruas do bairro onde mora, Jardim Espírito Santo, sua obra pode ser vista como um retrato da cultura da sua cidade. Uberaba é considerada a capital mundial do Zebu, uma espécie de bovino.

A relação entre a fisiologia merda e a arte se harmonizam do campo das significações. Biologicamente, as fezes são os materiais que restam da digestão. A etimologia da palavra remete ao latim faeces, que é o plural de resíduos. Por meio delas, pode-se fazer a análise, entre outras, dos hábitos alimentares, das diferenças genéticas e do stress pelo qual o indivíduo passou. O que é a obra de arte, senão a interação das emoções e da subjetividade do artista?

Essa é a opinião do mestre em literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Vinicius Pereira de Carvalho, ao avaliar a obra Mr. Mutt de Marcel Duchamp. Carvalho afirma em sua tese Literatura e abjeção: um estudo da imagem das fezes na obra de Rubem Fonseca que “defecar é um traço comum entre o artista e o leigo. Humanizado o artista, “artistiza-se” o contemplador, imprecisando-se os limites entre essas instâncias”.

Um grito de Merda

No teatro, um cocô originou o famoso “MERDA”, grito que os atores costumam dar antes de entrar no palco. Essa expressão nasceu na França. Reza a lenda, que um ator francês estava a caminho do teatro, onde iria apresentar uma peça muito importante. Críticos conceituados estariam presentes no espetáculo para avaliá-lo. Contudo, durante o percurso, aconteceram vários incidentes: passou por um incêndio, errou o caminho e, para finalizar, na porta do teatro, pisou numa bosta de cachorro. Fato é que, depois de todos esses obstáculos, a peça foi um sucesso, uma das melhores da carreira do ator. Por isso, hoje, quando o ator diz merda ao outro, está lhe desejando boa sorte.

Outra interpretação para a expressão nasceu no teatro antigo. Os nobres costumavam ir ao teatro de carruagem e os cavalos deixavam seus excrementos pelas ruas. O esterco era um indicador de público para os espetáculos. Então, os atores desejavam muita merda para que as peças estivessem sempre cheias.

A atriz Marisa Orth, em entrevista à revista Vip, trata o assunto de uma maneira mais subjetiva, não menos instigante: “Acho que o hábito de se falar merda antes de entrar em cena está ligado ao fato de que o trabalho é meio sujo, temos que lidar com a anti-vaidade. Se você entrar no palco querendo parecer chique não conseguirá relaxar e fazer o tem que fazer. Para quem está em cena, vergonha pouca é bobagem! Para mim a expressão vem de 'cagada', que significa sorte”, comentou.

E quem disse que na moda não tem merda? Um designer londrino que se apresenta como INSA criou um sapato feito de resina misturada com fezes de elefante. O calçado está exposto na galeria de artes britânica Tate. O artista produziu a peça em resposta ao pintor, também inglês, Chris Offili, que utilizou o mesmo material para a composição de alguns de seus quadros. Offili pintou a Virgem Maria negra, utilizando closes imagens da genitália feminina e estrume de elefante.

Por ser orgânica, a arte com esterco abrange, é claro, a sustentabilidade. A artista americana Susan Bell recicla as fezes de seus cavalos produzindo esculturas de animais como gatos, coelhos e cachorros. As peças servem para ornar jardins. Elas se decompõem lentamente, enfeitando-os e servindo como adubo.

Mas porque tantos questionamentos e tanta repulsa a cerca das fezes? Para Julia Kristeva o abjeto, tem grande importância por ser a regra que foge à exceção. Kristeva afirma, em seu livro Introdução à semanálise, que o mundo se organizou em polaridades que podem ser resumidas pelo interno e externo. A merda, assim como os outros mucos corporais, não fazem essa ponte. Transgridem.

A opinião é partilhada pela doutora em semiologia e professora da Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, Vera Casa Nova: "A grande idéia (ao falar de merda) é a idéia da transgressão, de tirar o espectador de seu lugar de passividade. Ele leva um choque e passa a ver o corpo de outra forma.”. Para Casa Nova, a transgressão é o fim da ditadura da beleza. A professora ainda aproveita para fazer uma reflexão: “O que somos nós? A perfeição? A beleza? Nos não somos nada. Somos exatamente isso: um pedaço de merda”.

O lado da merda

Se nas artes plásticas, os artistas podem se apoiar em diferentes formas, cores e textura das fezes, na literatura fica mais difícil se apoiar nos atributos físicos da merda. Por isso, os escritores têm outro mote. Eles se apóiam em diferentes significados que esses dejetos humanos podem ter para construir a peça literária.

No Brasil, o escritor Glauco Mattoso se destaca pela crítica social não através das fezes, mas de todo o abjeto. Não é incomum ler em seus poemas e poesias títulos como “Sonetário Sanitário” e “Penso, logo cago”. Dono de uma trajetória ímpar, Glauco Mattoso é, na verdade, Pedro José Ferreira da Silva, homem que perdeu a visão graças a um glaucoma. Por isso Glauco Mattoso, ou seja, glaucomatoso, aquele que é portador de glaucoma.

“Fiz a apologia da merda em prosa & verso, de cabo a rabo. Na prática, eu queria dizer pra mim mesmo e pros outros: ‘Se no meio dos poucos bons tem tanta gente fazendo merda e se autopromovendo, por que eu não posso fazer a dita propriamente dita e justificá-la? ’”. Foi dessa forma, que em entrevista ao site UOL, Mattoso justificou sua poesia visceral.

Outro autor brasileiro que se apóia nas fezes para criar um clima de transgressão em suas obras é Rubem Fonseca. Fonseca, diferente de Mattoso, é mais um crítico social que um prosador. O autor se esforça em criticar as relações humanas e temas metafísicos, como no conto Cropomancia, do livro Secreções, excreções e desatinos, que questiona porque Deus criou as fezes. Neste mesmo conto, o personagem criado por Fonseca cataloga suas fezes, tirando fotos diárias e depois tenta ler o futuro através delas.

De acordo, com Alexandre Rodrigues da Costa, pós doutorando em literatura brasileira pela faculdade de letras da UFMG, tanto para Rubem Fonseca, quanto para Glauco Matosso, utilizar as fezes como um artifício literário é uma forma de mostrar o outro lado do bonito e tirar o leitor de seu lugar de passividade, da simples contemplação do corpo belo, perfeito e simétrico desenhado por Da Vinci.

Fazendo merda nas artes plásticas

“Conteúdo: 30 gramas; conservado ao natural, produzido e enfrascado em maio de 1961; produzido por Piero Manzoni; made in Italy”. Dentro das 90 latas devidamente lacradas e etiquetadas estavam as fezes do artista plástico italiano Piero Munzoni. O caso clássico aconteceu em 1961, quando Munzoni defecou nas latas e titulou-as como Merde d’artsta ou Merda de artista.

Munzoni reflete o sentimento revoltoso dos dadaístas do início do século passado. O dadaísmo foi um movimento artístico que se iniciou em 1916, em Zurique, por jovens artistas franceses e alemães que, exilados na Suíça, eram contrários à Primeira Guerra Mundial. Abrangeram todas as formas de cultura, entre elas, a literatura e as artes plásticas. Um dos seus maiores representantes, Marcel Duchamp, escancarou a discussão em torno do que poderia ser considerado arte. Por meio dos ready-mades, o artista mostrou que a obra não dependia de uma estética e sim de fatores relacionando com o local onde as obras eram expostas, o valor e a significação que o artista dava para elas, validando-as como arte.

Em harmonia com as principais características do movimento - a negação da cultura e a defesa do absurdo, incoerência e caos - as obras de Muzoni geram discussões que são constantemente debatidas, mesmo na atualidade. Para o professor de filosofia Luiz Henrique Vieira Magalhães, Munzoni encara as latas de merda como uma ode ao choque e ao escândalo. Ele considera os argumentos usados para a interpretação da obra, que visa criticar o mercado das artes, quando o artista vende merda por ouro. Porém, concorda com Ferreira Gullar quando questiona a dimensão artística desse tipo de produção, da insistência do artista em afirmar uma convenção estabelecida anteriormente por outros. “É uma coisa que na verdade já foi feita com Duchamp, são variações do mesmo tema”, pontua.

Outro artista que inovou suas obras com o uso da bosta foi o alemão Martin Von Ostrowski que, em 2000, trocou a tinta a óleo pelas próprias fezes ao pintar um quadro de Hitler. Para ele, o artista é parte do incalculável mundo orgânico, podendo quase se perder nele. Trabalhar com a merda remete à busca de uma razão para se fazer arte. O artista vive em simbiose com os microorganismos e precisa deles para viver. Famoso por suas excentricidades, Ostrowski, além de ter feito outros quadros com fezes, também já usou, como matéria prima para algumas obras, seu esperma e afirma categoricamente: “Eu existo assim como faço digestão, assim como produzo sêmen”.

Esquisitices à parte, fazer o uso da merda como forma, subjetiva ou escrachada, de uma realidade, enriqueceu bastante a reflexão em torno da arte e as variadas interpretações que dela se pode criar. Apesar de que Rita Lee já dizia, “tudo vira bosta”.

Súplica ao Mestre

Mestre dos sofrimentos e das alegrias imploro a ti minha absolvição.
Há muito, tenho caído nas armadilhas tuas e desta vez não foi diferente.
Sei que és apático aos meus sentimentos, mas sempre arranjaste um jeito de me ludibriar com tuas ilusões e promessas de felicidade.
Tentei mais uma vez e, como foste condolente, achei que venceria.
Fiz tudo como mandaste.
Comecei com calma, cauteloso, não me entreguei de primeira.
Enganaste-me.
Tal fórmula não funcionou.
Vejo vossa obra em inúmeros casais, felizes criaturas emaranhadas de sonhos e desejos.
Deste a eles essa alegria.
Por que as nega a mim?
Às mães, concedes o incondicional.
Supre a carência dos que não tem ninguém com, desculpe o desrespeito, bichos!
A mim, deixaste esse amargor de fracassos.
E, por isso, peço-lhe que findes o meu sofrer.
Desista de mim.
Não nasci para ser teu servo.
Quando me envolvo, torno-me escravo do outro e não do senhor.
Ensinaste-me a arte do teu ofício.
Contudo, sabes, sou um péssimo aprendiz.
Estudei tudo pela metade e minha avidez me destroçou.
Não gostas de intensidade.
Ficas furioso, eu sei, quando alguns confundem tua vocação com a loucura e o desespero excessivo de um outro mestre, que às vezes se passa pelo senhor.
Esse outro eu conheço bem.
Mas dele, já me absolvi.
Agora peço ao senhor, Amor.
Tira-me dessa vida de erros.
Expulsa-me de tua escola.
Porque dela eu não pertenço mais.

A construção do fracasso em cena.

“Ah! Com que rapidez a tão almejada liberdade de ação, de amor, de trabalho, enfim, de escolha, se transforma em pesadelo encharcado de angústia, já que não há escolha sem risco?” Jorge Forbes.

O monólogo “Que História Você Quer Contar”, de autoria de Guilherme Toledo, é o retrato de um ser humano que lida com as dificuldades da vida contemporânea. Com a direção do estreante Henrique Cruz, a peça mostra a construção de um homem, narrada e interpretada por Toledo. O cenário é simples, composto apenas por tijolos, que vão se moldando e dando forma aos lugares e situações vividas pelo personagem no decorrer do espetáculo.

É uma história de abusos e fracassos. Gilberto, um homem de aproximadamente trinta anos, foi violentado na infância pela babá, além de ter sofrido bulling durante toda a adolescência. Começou a faculdade de pedagogia, mas, por influência das tias, acabou trancando por ser um curso de meninas. Relacionou-se com algumas mulheres, porém nunca manteve um relacionamento estável. Atualmente, mora sozinho, sobrevive de vendas de enciclopédias e atura o chefe português escroto.

Percebe-se, ao longo da peça, que o personagem é avaliado e cobrado a todo o momento a atender às demandas da sociedade. Em uma cena, frases imperativas em inglês são jogadas ao ar pelos auto-falantes do teatro, ordenando ao personagem a ser o melhor, vencer, conquistar, tudo o que o mundo pós-moderno exige de seus habitantes. Os traumas que Gilberto viveu ao longo de sua jornada, juntamente com essa cobrança de vitória, o fizeram um colecionador de insucessos. Chega uma hora que ele grita: “Eu não agüento”. Fato certo é que ninguém agüenta.

Contudo, parece que o personagem se acomoda a esse estado de fracasso e o justifica colocando-se como aquele que não possui o que o mundo exigiu, isentando-o da busca por seus desejos. O psicanalista Jorge Forbes atenta para o fato e diz: “Além das aparências, a avaliação, em muitos casos atuais, é mística que irresponsabiliza a ação humana construindo equivalências, catalogando nossas ações em prateleiras burocráticas, para boi dormir”.