
Nunca estive tão feliz em toda minha vida. Juro, não imaginava que participar das eleições fosse tão legal. A família toda está radiante! Papai trocou as telhas lá de casa, Mamãe tem o que cozinhar e eu e meus irmãos ganhamos cadernos e canetas novas. Olha que beleza, essa aqui ainda não falhou nenhuma vez! E para aumentar minha felicidade: teremos 2º turno!
A professora lá na escolinha da comunidade vive falando umas baboseiras que eu não entendo: que os políticos sujam as ruas com propagandas, que eles não pensam nessa tal sustentabilidade, que a cidade virou um grande lixo. “Quanta imundice produz esses santinhos”, diz revoltada. Esses santinhos são mesmo santos, graças a Deus! Por causa deles que minha vida melhorou. Não só desses papeizinhos sagrados, mas, também, dos cartazes, outdoors que descasam com as chuvas, cavaletes. É deles que tiro meu sustento.
Desde quando Papai conseguiu largou a bebida, nos mantemos com os papelões que o povo deixa na rua. Sempre tive vergonha de andar de sinal em sinal pedindo dinheiro praquele pessoal que fingia que eu nem existia. Amigos? Escola? Um cobertor e uma esteira? Eu nem sabia o que era isso. Mamãe vivia emburrada essa época. Discussões a toda hora no meio da avenida, gente estranha nos rondando a todo minuto. Mas, falar do passado me entristece, vamos falar do 2º turno, que me deixa alegre.
Eu sei, eu sei que tem muita gente chateada por causa disso. Um bocado queria que essas eleições acabassem de uma vez. Gente estranha. Eu sei que a papelada vai ser menor, mas, ainda assim, vai ser maior do que eu estou acostumado.
Lá em casa, todos trabalham. Eu e meus irmãos vamos para a escola cedinho. Saímos juntos com Papai e seu carrinho (não sei por que ele chama de carrinho, aquilo me parece um caminhão de madeira). Mamãe fica em casa arrumando comida e depois vai pra igreja. Ah, eu podia passar o resto da minha vida naquela igreja, parece aqueles palácios das histórias que a professora conta, sabe?! Mas Mamãe também trabalha, só que nos finais de semana. O ramo dela é outro: as latinhas. A feira hippie, diz ela, é uma benção nas férias.
Bom, depois da escola, eu e meus irmãos almoçamos em casa e vamos ajudar o Papai. Já até conseguimos uma grana entregando os milagrosos santinhos em uma esquina no centro. E eles ainda deram o dinheiro da passagem.
Mamãe ora todo dia pela união da nossa família. A gente briga sim, ela me bate às vezes, mas ela aprendeu a conversar. O Papai aprendeu a ouvir. Ela é meio chata com essas coisas de Jesus, mas a gente releva. Isso faz bem a ela. E agora, com as eleições, tá todo mundo manso. Depois falam que dinheiro não traz felicidade.
Então é isso, gente. Obrigado aos que leram até aqui. Desculpem por pedir de volta esse papel, mas quando as eleições acabarem, ele vai ser muito valioso. E lembrem-se: continuem fabricando os santinhos. Enquanto eles estiverem nas ruas, eu terei o que comemorar. E, ah, ajudem sempre a fazer um 2º turno, hein?!
Atenciosamente,
Zé.
José recolhe os textos das mãos dos passageiros, quinze cópias feitas à mão e corrigidas pela professora. Sai do ônibus que o levara ao encontro de seu pai, faceiro como nunca, com a satisfação de quem cumpriu seu dever.