Saí do trabalho. Caminho pela mesma trajetória de sempre. Essa rotina de viver me cansou. Lembro-me de um passado próximo quando a vida tinha mais cor. Claro, tinha meus dias cinzentos, ninguém é feliz a todo o momento. Essas pessoas na rua, desinteressadas e ignorantes, hoje, me despertam inveja. “A ignorância é uma bênção, meu filho”, já dizia a minha avó.
A subjetividade em excesso pode ser perigosa e doentia. Adquiri a sina da interpretação da minha inconstância, acredito, por causa da psicanálise. Anos de divã que, há muito me serviram, agora me enlouquecem. Chego à frente do meu prédio. Não tenho vontade de entrar. Subir aqueles vinte e cinco degraus e encarar minha solidão? Tenho minhas dúvidas. Desaprendi a ser só. Preparar café da manhã pra um é frustrante. Dormir de conchinha com um travesseiro, então, nem se fala.
Mas entro. Não tenho mais pra onde ir. A grana ta contada. Separação é uma coisa que empobrece a gente. Gostaria de uma lei que nos amparasse nesses casos de “divórcio”, entre aspas mesmo. Porém, pra minha alegria, e eu tenho que ter uma dessas pelo menos uma vez por mês, vejo um bom vinho no meu bar furado. Safra nossa, meu orgulho.
Não tive coragem de trocar nada de lugar. Os quadros persistem na parede amarela e, no mural, os retratos insistem em me perturbar. O jazz combina com a ocasião. Sou tão clichê nessas horas. Tento não pensar em nada.
A garrafa já acabou. Vou pro uísque velho que jaz naquela estante empoeirada, há séculos, somente para decoração. O torpor do álcool me consome. Já não consigo não pensar na falta que ele me faz. A vida me cansou de tal forma que só a embriaguez me alivia.
Eu choro. A depressão nunca me pertenceu. Mas, agora, é pra valer. A tristeza tomou posse. Pra quê sábado? A noite de sexta-feira se tornou como as outras. Vazia. O doze anos, comprado para durar, no mínimo, mais doze, já está no final. Meus reflexos falham.
Perco o equilíbrio. Já se passam das três da manhã. Recordo-me da minha última decepção. Dez dias da derrota do Eduardo. Piñera, aquele direitoso capitalista e aproveitador, conseguiu. Lá vem um Pinochet moderninho acabar conosco. Se Frei tivesse no poder, pelo menos estaria satisfeito. Mas não. Esse, definitivamente, não é meu mês. Fevereiro é sempre esquisito.
A política me foge e, de novo, sinto saudades dele. São vinte para as quatro. Saio do tino. O chão me foge. Já não agüento mais. Os quadros se desprendem da parede amarela. Meus sonhos e minhas ilusões caem sobre mim, como maçãs amadurecidas que não tiveram quem alimentar. Os móveis, como minha realidade, chacoalham pelo apartamento. O teto se despedaça. Eu me despedaço. O Chile se move, temeroso por um futuro incerto. E eu paro de vez, cansado de esperar pelo futuro.